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Vamos fugir para que lugar?

por amorlíquido, em 20.04.20

Dedilham os meus dedos por todas as antíteses com que se cruzam, ténues de esperança marfim e negras de revolta escondida. O meu corpo curva-se sobre o tempo que não passa, descaindo os ombros que suportam o espaço onde quero estar. Aqui, presente. 

Este ser que permanece, irrequieto pelas raízes que dele desabrocham e no mundo vão sentir as mil e uma cores que me tornam cego de pintar. As cordas vibram com o meu pranto e nele o chão estremece, abraçando as feridas que a vida trouxe, muitas delas não soube o vento levar. Sou escravo do que nunca terei, roubado à margem do que era meu por direito, do impossível por dever, de alguém que soubesse amar para depois esquecer. 

À luz da penumbra, a melodia esboçava o eco que conhecia as paredes do fundo daquele corredor, no qual tu te aproximavas, lentamente, passo por passo, leve como as gotas que gritavam na janela, uma após outra, espreitando para um calor incerto, talvez redescoberto pelo fogo que haveríamos de criar. As minhas mãos tinham ganho a força que outrora jamais haviam tido e, de ti, o meu olhar não se desviava, preso na silhueta com que te fazias acompanhar, elegante e invulgar. A minha imaginação já havia criado o esboço de tamanha perfeição por surgir, longe do que a surpresa poderia esperar.

No foco da escuridão ausente, arrepiava-se a pele que vestia os teus contornos mais angulares, repletos de vértices e arestas íngremes, doente de ingenuidade. Saltavam à vista as derrotas e as rotas, um mapa longo e vasto, aquele que a experiência te escolhera dar. Contra a tua vontade, é certo. Contra o agrado de outros tantos, tontos da sensação de ser diferente, de no mundo sentir ausente, a vida, o sonho, a vitória, o nosso constante querer. Admirava a precisão dos teus gestos mais intocáveis, apreciando a simetria improvável entre um teclado e o teu dom, numa mistura cinzenta que acumulava as lágrimas perdidas e arrefecia o sonho que ainda vivia debaixo dos meus dedos. Tinhas o ar, tinhas o norte, tinhas tudo para respirar. Pensaste chega, pensaste morte, até que a vida fez transpirar e tu saltaste, acordaste e falhaste, sabendo que aquilo que vem, um dia, há de regressar.  

Ali, no meio da multidão, periferia ignorante à consciência, que me fazia levitar sem o sonho deixar por vencer, nem te apercebeste como a minha bravura estremecia a cada movimento teu, derretendo na delicadeza que aveludava os teus vales de precipícios inerentes, as ilhas amenas onde o meu céu chorava e enlouquecia com a humildade dos teus compassos, atrasando o tempo sem o tempo importar saber.

Por breves instantes imaginei-nos na alvorada que a natureza decidiu fazer, embarcando na sua forma mais imponente, no cimo da espuma ondulante, deixando o mundo inteiro para trás. Conseguia sentir os esperneios do vento, o cheiro a maresia que se entranhava na minha alma, na minha pele, no rosto e no meu chapéu, combatendo a tempestade que se aproveitava das inseguranças e se apropriava de tantas vontades prediletas, cuja raiva fazia ranger os estilhaços que pisava, na madeira fria, seca e farpada que se mantinha logo ao lado dos meus pés.

Amargura, indiferença, solidão. Era assim que o ambiente se confessava, contigo sentada à proa dos devaneios, enquanto os salpicos do mar rabiscavam estas frases tolas de quem gosta e não pode senão ocultar. A ironia desses solos lamacentos que pisámos e do sol que ultrapassou quaisquer copas esverdeadas, entre a raiva do passado e o perdão do futuramente.

Sei que és alguém a quem o mundo, tantas vezes, lhe parece gélido, cuja alma sente vontade de rasgar o próprio corpo e aquecer a vida, colorir cada ser da mesma cor como se fôssemos todos iguais porque, na verdade, nunca deixámos de o ser. A raça que nos separa não afasta, as convicções não nos aproximam porque, no fundo, todos vemos as planícies da mesma altura, a cidade surge-nos com a mesma grandiosa pequenez. Tudo tem o mesmo longínquo alcance.

Quando a chuva cair, não de lado algum senão de ti mesma, de dentro e do mais profundo, a sombra dos teus medos irá envergonhar-se e, mesmo com as asas feitas de um qualquer papel, far-te-á voar. Para um lugar diferente. 

 

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2 comentários

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Rita PN a 20.04.2020

Não consigo dizer nada... Apenas: obrigado!!! (estou a tremer... arrepiou).
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Luísa de Sousa a 20.04.2020

Que lindo texto ... acompanhado por uma música maravilhosa!!!

Beijinhos
Feliz Dia!

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