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Em tempos de pandemia...

por amorlíquido, em 16.03.20

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...sinto o meu país exausto, inseguro, maduro na compressão da necessidade de agir, porém ingénuo na certeza das decisões tomadas. 

À janela, onde antes me demorava a ver as filas de carros que se formavam em hora de ponta, conto agora, e pelos dedos de uma mão apenas, aqueles que (ainda) se deslocam. Para um lugar deserto. Outros, num sentido em vão.
Um povo que tardou em aperceber-se da gravidade da situação, que procurou teimar com o que ditava o bom senso e a responsabilidade, está, no presente e acredito que em grande parte, a viver um momento extraordinário. Das suas vidas. Da História do mundo como até então o conhecíamos.
Desafiam-se os limites da vivência afastada da liberdade. Entre paredes cuja cor nem nunca tínhamos prestado grande atenção. Em convivência contínua com quem antes, talvez, só víamos poucas horas por dia e, na tentativa de evitar o desespero, damos por nós à procura de novas formas de respiração. 
Estes são os que se recolheram com a intenção de impedir o avanço da tempestade. Soldados sem escudo nem espada, mas que, indiretamente, se reinventam num luta sem término à vista. 

Há os que, por dever todavia não suspenso, caminham num campo minado para assegurar que os em isolamento não conheçam a insuficiência, a necessidade urgente ou a fome. Os que na rua garantem a segurança dos que circulam. Os que, expostos indevidamente, suportam o peso inteiro de um colapso económico iminente. 
E há os que se encontram no centro da batalha, no epicentro da agitação. Alguns, os escudos perderam. Outros, as espadas perder-se-ão no chão. Um tempo ingrato de guerra com o invisível, o traiçoeiro e desconhecido. De mãos dadas com o perigo para que a ninguém o sangue seja derramado completamente. 

A curva dos sorrisos conhece a expressão do medo. Os dias que se alongam surgem cada vez mais curtos. Numa corrida contra o tempo, onde a esperança substitui as previsões e o egoísmo permanente dá tréguas a uma partilha comum, ao querer coletivo. É nestes momentos em que me apercebo da pequenez que nos define, da fragilidade que nos sustenta e de como o tempo que julgamos dominar, por entre o horizonte circula de fininho, sem olhar para trás. 
Que a quarentena traga consigo alguns ensinamentos ou, pelo menos, reflexões a ponderar. Que a falta de tempo do quotidiano para gestos simples de cortesia, amor ou consideração sejam concretizados antes que a dúvida da indisponibilidade se intrometa. Que saibamos olhar para o outro, querendo cuidar como cuidaríamos dos nossos (e de nós mesmos). Que troquemos a arrogância pelo altruísmo, a frieza pela generosidade. Que saibamos dar valor ao livro guardado na estante, ao beijo do nosso filho, às refeições em família. Que reconheçamos a importância dos afetos entre a azáfama do frequentemente, que consigamos compreender a relevância da existência de quem nos defenda, incondicionalmente, e de forma acessível a todos. 

Mas, e sobretudo, que nunca esqueçamos as oportunidades que nascem das guerras mais sofridas. Com novas ideias, com atitudes mais corajosas, com conhecimento mais validado. Que saiamos mais solidários, empáticos, mais responsáveis e conscientes. Que retiremos alguma lição, nem que seja do tempo que tivemos para nos conhecermos melhor enquanto a essência que, todos os dias, dentro de nós levamos. 

Sei que venceremos. E que da tormenta regressarão os abraços sinceros do antigamente. 

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