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Sobre (o) amor

por amorlíquido, em 19.04.20

Essa palavra estranha que em nós se entranha e, numa mesma parcela do tempo, tem a habilidade de virar os cantos dos lábios em duas direções contrárias. Dois lados de uma só moeda num todo que ele próprio o é. Falo-vos de amor. 

Amor sentido, talvez sofrido. Amor oferecido. Amor consentido porque, sem ser sentido, amor deixa de ser. Amor à distância ou amor que surge na constante proximidade. Amor incerto, inconsequente. Amor que das regras não quer saber. Amor que se vive, amor pelo qual se falece. Um limite dúbio entre as instâncias do abraçar e do sucumbir, onde o vínculo à existência se forma na possibilidade de amar. 

Amor que cresce dentro de nós. Amor que incendeia no toque da pele. Amor sem paixão. Amor com corpo, alma, tempo e coração. Amor por quem de onde partimos. Amor pelos que nos verão desvanecer. Amor por gente nossa, próxima da distinção da essência, muito além da indiferença que, por amor, não cabe nunca em nós. 

Amor que sabe amar. Amor que encontra num olhar a mesma intensidade de um primeiro beijo e num sorriso a mesma verdade do último abraço. Amor feito de amor. Amor ingénuo e imaturo, no qual existia tudo menos amar. Amor é também senti-lo por quem amor não nos proporcionou. Há muitas formas de amar e nem todas elas significam amor. 

Amor que, por amar, sofre na dor. Amor que às vezes magoa para que nos aprendamos a amar. Amor que muito sente e que quando mente pode também ser sinónimo de amar. Amor que transporta na bagagem a liberdade, a compreensão, o respeito, a amizade, o carinho, a honestidade e a atração. Amor que nada exige de quem não sabe dar. 

Amor que se multiplica na ausência e que se divide perante adição. Amor que faz convergir a anatomia e que na descoberta da geografia, a matemática perde o seu lugar. Troca-se o exato pelo porventura e a única certeza conhecida é a de que na extinção do desejo, o amor permanece intacto. Apesar do dilúvio, nosso ou do mundo. Contrariando a física do vento ou a química do que a mágoa transborda. O amor fica lá. Receoso e inocente. O amor aprende. Ele resiste. E após saber a matéria, o universo destrói as fábulas e as histórias, trazendo os medos e as memórias para cessar o investimento. Mas o amor insiste. É na persistência que se torna aprendiz. Pela resiliência ganha experiência e na tranquilidade faz-se feliz.

Amor com cicatrizes.

Amor com falhas.

Amor que ama e que, por amor, deixa de amar.

Amor que não esquece mas finge esquecer.

Amor que protege e que perdoa. 

Amor que por amar também magoa. 

Principalmente por tanto amar.

Amor que quando se sabe amor, aparece. Amor que escurece quando se sente incapaz de amar. Amor que se renova. Amor do qual se gosta. Amor que na morte se conhece.

Amor que da poeira, renasce. Amor que num grito de vontade, retorna. Amor que é amor antes de despontar.

Amor de quem ama, de quem se ama. Amor que sabe (a)mar. 

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1 comentário

Sem imagem de perfil

M a 19.04.2020

maravilhoso...

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