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Sobre Envelhecer

por amorlíquido, em 20.03.20

 

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(Autor desconhecido)

 

Começo por vos questionar sobre a seguinte reflexão:

Envelhecemos enquanto sinónimo de um número enclausurado ou é na chegada ao limiar do desconhecido que nos apercebemos do verdadeiro significado da existência?

Há quem diga que a velhice não é mais do que um período (ingrato) de preparação para a inevitável certeza da qual nenhum de nós pode ousar fugir. Há quem diga que é uma contagem (cada vez mais) decrescente, onde o palpitar do coração se torna mais suave, espaçado, em previsão da continuidade cuja linha não voltará a ser irregular. 

Dói-me a alma quando sei dos idosos abandonados, pela prepotência de quem os julga (agora) desprezíveis. Dos maltratados pelos que os sentem um fardo que não pretendem suportar. Daqueles que os ludibriam, encontrando poder na sua ingenuidade. E pergunto-me:

Existiria a mesma coragem nos atos se os alvos atraiçoados fossem de vigor físico dificilmente abalroado?

Na ausência de resposta, não porque não me debata sobre ela, senão porque prefiro que cada um a encontre em si mesmo, atrevo-me somente a pensar o seguinte:

Os velhos de agora foram os pais de energia incansável que, não num passado muito distante, corriam atrás dos seus filhos inquietos pelo jardim. Os velhos que, como os jovens de hoje, também se apaixonaram, encontrando sentido no toque e paixão no abraço. Os velhos cuja insipiência de domínio virtual e tecnológico não significa total obscurantismo ou iliteracia. Não.

O problema está mais na insensibilidade dos que vêem a sua fragilidade como transtorno, do que na vulnerabilidade que o tempo lhes impôs. Está na dificuldade em perceber as vivências distintas e em trocar a falta de paciência pelo interesse sincero da aprendizagem. Do que foi e não regressa, nem que isso seja necessariamente pior. O problema está na frieza com que, quero acreditar que poucos, tratam de igual modo os trapos que já não servem, rasgam os papéis que expiraram a relevância, (des)fazem "amigos" que nos desiludiram nas redes sociais.

Podemos emocionar-nos com a incompreensão do tempo e a rapidez com que o mesmo fez da sua inércia, curvas tristes de um mapa, tantas vezes, irreconhecível. Cansado, sofrido, amedrontado. Podemos assustar-nos com a passividade na aceitação do não devolvível e, talvez, mas só talvez, reconhecermos o nosso caminho na mesma direção. Termos medo de que o espelho faça de nós dúvidas deambulantes, onde o amor pela essência não pode senão ser pelas conquistas que o quotidiano tatuou e, nelas, a sabedoria nasceu.

Talvez, mas só talvez, nesse instante, e com sapatos que (ainda) não nos pertencem, possamos saber a cor da indiferença. Que assim não seja. E que para quem o for, que a gravidade do que os ombros suportam sirva de manto caloroso até o corpo se deixar, simplesmente, adormecer. 

 

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