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Relógio do Tempo

por amorlíquido, em 12.05.20

Hoje, sento-me aqui. Na perpendicularidade imperfeita de um momento, na divisão geométrica de um pedaço de tempo que, brevemente, encontrei. Fito o horizonte de números que se introduzem diante de mim, num tiquetaque incessante, e o meu olhar converge numa metade de dois círculos inacabados, talvez esquecidos na criatividade saltitante de um qualquer pincel.
Sinto-me dentro de algo sem que essa certeza abstrata me pertença. E, por isso, questiono-me: Seremos donos do tempo? Seremos uma parte dessa imaterialidade? Ou o tempo será a nossa essência?
Poderemos pensar que contornamos essa matéria impalpável a que chamamos…tempo. Um paradoxo do qual, ingenuamente, nos convencemos. O tempo encerra em si mesmo o pináculo do não corpóreo. Sem cheiro, sem sabor, sem margens tocáveis, porém corremos atrás desse tempo, tentamos agarrá-lo sem que o deixemos fugir. Porque mais que o desejo de controlar, está o receio do descontrolo. Mais que a vontade de o conhecer repetidamente, está o medo de não o viver completamente.
Mas, seremos realmente donos do tempo? Como ter a posse do não visível se não detemos tudo quanto fomos construindo em nós? Enquanto o meu desabafo se desenrola, o meu corpo escorrega agora para um abraço com o tão famoso número da sorte. A simetria desvaneceu num ângulo defeituoso, onde o conforto deu lugar à preocupação do precipício.
Pensou alguma vez em si enquanto uma ínfima partícula de um universo inexplicável? Para mim, cada ser humano é a milésima parte de um mistério escasso de sentidos, que se alimenta do nosso significado. Um comboio cujo movimento é permanente, nos carris intermináveis que é a História. Em algum momento, surgimos nós, como espécie e enquanto indivíduos independentes. Antes de si viveram tribos indígenas entretanto extintas, soldados que, entre guerras declaradas, lutaram pela liberdade. Depois de si, muitas crianças continuarão a morrer à fome, mas também os seus bisnetos irão casar e multidões gritarão em silêncio para ter voz. Tudo tem a outra face da moeda, e aquela que escolhemos para refletir o sol não determinada nada, porque amanhã a moeda cai, gira e o mundo transforma-se…..afinal, parece que é (tudo) uma questão de tempo.
Mais do que o que temos, somos do verbo “ser”. Somos tempo e tempo não temos: curioso, não é? Somos a carruagem em que entramos quando nascemos e aquela em que estamos no momento do desembarque. O trajeto é aquilo a que, acertadamente, chamamos Tempo.
Poderemos, então, ser parte de um tempo enquanto tempo que também não deixamos de ser? Chegamos na obtusidade de uma fração de segundos e despedimo-nos quando nenhum obstáculo se opõe à nossa queda. No entretanto, somos tempo, do nosso tempo, durante o máximo de tempo que o então tempo nos permitir.
A resposta eu não sei. A lógica destas reflexões existirá seguramente no interior de cada um de vós. Há, contudo, algo do qual eu desconfio: entre um quarto de doze e a metade de quatorze existe a verticalidade pela qual, há pouco, fingi não passar. Deu conta? É nesse ângulo raso que a nossa essência termina e os abraços se desenlaçam. Quanto ao tempo, deixamos aquele onde, inicialmente, batemos à porta e levamos connosco o que sempre esteve em nós.

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2 comentários

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Triptofano! a 13.05.2020

Pedes-me um momento
Agarras as palavras
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas
Levas a cidade
Solta me o cabelo
Perdes-te comigo
Porque o mundo é o momento
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amorlíquido a 13.05.2020

Essa música diz tudo!
Não diria melhor

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