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Ramalho Eanes: "Nós, os velhos..."

por amorlíquido, em 02.04.20

Na entrevista que Fátima Campos Ferreira conduziu ao antigo Presidente da República, António Ramalho Eanes, emitida pela RTP na noite desta quarta-feira, 1 de Abril de 2020, os espetadores assistiram a trinta minutos de um desenrolar de uma mensagem que vale a pena relembrar e reforçar.
Do alto dos seus oitenta e cinco anos vividos, sapientes e cavalheirescos, o primeiro presidente eleito após a revolução do 25 de Abril, demonstrou a sua sensibilidade e inteligência nas palavras que proferiu, deixando claro que é, quase sempre, na humildade da essência onde se encontram os Grandes seres humanos deste universo.
O diálogo que se foi criando não nos deixou certamente surpresos pela sua razoabilidade, contudo o sentimento que inflamou as sucessivas afirmações foram de uma dignidade imensurável.
Sim, já sabemos que vivemos uma situação excecional, seja ela social, política, económica ou humanitária. Também nos apercebemos que as sociedades foram abaladas por uma catástrofe que ninguém sentiu chegar. Como tantos referiram, um tsunami que a todos nos conseguiu molhar. Aqueles que, sem saber, brincavam na areia quando viram o chão estremecer. Aqueles que correm, todos os dias, para que os que estão na praia e não conseguem voltar, possam, em algum momento, a casa regressar. Todos os que se abrigaram a tempo e, hoje, vêem a ondulação da tempestade, lá ao longe, mas, mesmo assim, teimam tantas vezes em abandonar essa certeza de conforto.
Num século de intensa globalização, e com algumas exceções culturais, abrimos mão do "vamos juntos" para abraçar o "cada um por si". Trocou-se a solidariedade pelo egoísmo, a cooperação pelo individualismo e, do altruísmo nasceu a competição. A ironia de uma suposta união onde a Europa desvenda, mais que nunca, como os interesses individuais se sobrepõem às necessidades coletivas. Países que olham para o seu umbigo, deixando parceiros à beira da inundação. Comunidades de escassos recursos que se chegam à frente, colocando de lado as diferenças, as desavenças e mostrando que aprenderam a lição do: "a seguir podemos ser nós". 
Percebemos como toda a vida nos incutiram a importância da socialização e do fazer das relações uma constante evolução. E agora, sem que o pudéssemos esperar, isso é tudo quanto não podemos procurar. O cheiro, o toque, o abraço. Damos conta da relevância das redes para que nos sintamos menos sós. Pergunto-me? E sem a internet? Quantos de nós saberiam conviver com o que são? Quantos colocariam em retrospetiva todas as suas ações, analisando o porquê das intenções?
Sabem, somos nada. Eu, tu, os nossos. O muito que somos uns para os outros, desvanece aquando do confronto com estas crises. Uns relembram o quão pouco sabem, outros acordam para o tudo que nunca chegaram a ser. Fragilidade, vulnerabilidade. Indefeso, desamparado, desprotegido. É esse o tamanho da nossa pequenez. Tanto estudo, tanto debate, tanta investigação e, à data de hoje, existem 950.652 casos confirmados, dos quais perto de 50.000 resultaram em vítimas fatais. 
No meio da alvorada, há quem faça uso do poder que tem para descredibilizar as recomendações da OMS, para incentivar as pessoas a ir para a rua, a irem trabalhar normalmente. Há quem procure dar uma métrica a um razoável número de falecidos e, caso as contagens findem por defeito desse patamar, então uma das maiores potências mundiais deste mundo terá feito um "bom trabalho". Discursos repugnantes e populistas que atraem os que não foram ensinados a ter pensamento crítico e que convencem todos os que aprenderam a tragédia de se conformar. 
Mas sabem que mais? E regressando ao nosso país, e para os que se lamentam de sermos um povo pequenino, Portugal tem dado a conhecer a cor da sua garra. Com países latinos como Espanha e Itália com sistemas à beira do colapso, em que durante semanas o acréscimo de infetados era abismal, sem término à vista, Portugal tem conseguindo retardar a ocorrência do pico da epidemia, que é como quem diz, fazer com que o SNS não se defronte com a rutura. Que consiga detetar os casos ao mesmo tempo que tem a capacidade de resposta necessária e suficiente para ajudar e tratar aqueles que são alvo de maior preocupação.

Várias empresas e investigadores nacionais procuram formas de fabricar e produzir testes, máscaras e ventiladores. Tudo para ontem! Se antes faziam impressões 3D ou peças para automóveis, agora o foco é na produção de viseiras. Se antes produziam têxteis ou cervejas, agora fazem gel desinfetante. As organizações adaptam-se, reinventam-se, organizam-se em prol de um único objetivo: ganhar a guerra. Arrepia-me a espinha quando ouço que não somos bons, que lá fora há melhor. Caramba! Olhemos para o mundo, olhemos para nós e demos conta das diferenças, de como temos vindo a ser elogiados pelas medidas introduzidas e pelo cumprimento das recomendações apresentadas. No pouco espaço a que pertencemos neste mundo, nos milímetros que ocupamos na natureza, somos tanto!

Respeitem e fiquem em casa. De nada serve aplaudir os profissionais de saúde à janela ou cantar o hino a plenos pulmões, se saem de casa tão depressa como os raios de sol atravessam nuvens inexperientes. Aprendam novas formas de convívio, diversão, comunicação. Reflitam sobre o que estamos a viver, pensem no dia de ontem e em tudo o que fizeram, foquem-se no futuro e naquilo que não querem mais deixar por fazer. Reconheçam a importância dos vossos, de como eles estão no início, no durante e no fim. Como aquilo que vos faz ser alguém não se deve ao que têm, senão às pessoas que são de vocês. Tenham a certeza de que o amanhã será irregular e que exigirá dedicação de todos para voltar a aplanar o terreno. Estejam seguros de que serão tempos duros, mas que os obstáculos se ultrapassam um de cada vez. 
Respeitem-se e respeitem os outros. Respeitem quem é dos outros tal como esperam que eles respeitem que é de vós. Só unidos podemos travar o comprimento das ondas. Protejam os mais velhos. Principalmente porque se eles vierem a ficar entre a vida e a morte, serão os primeiros a ir embora. Porque entre os jovens e os velhos, ficam aqueles que ainda têm mais anos pela frente. É uma questão que pode levantar algumas interrogações éticas (eu própria poderia questionar a justiça dessa decisão com uma dezena de exemplos), mas é o critério de escolha, se a necessidade de ela surgir. E só depende de nós, de cada um de nós, impedir o seu aparecimento. 

Que na visão periférica incluamos os desconhecidos e que eles o façam com quem nos ama a nós. A nossa vida depende disso. A da tua mãe asmática, a do teu avô diabético, a do sobrinho da tua amiga que tem uma doença autoimune. A dos que são gente e que pela gente que são, não importa a idade, merecem viver. 
E lembra-te, 10 mortos em 10.000 pode parecer pouco. Mas e se esses 10 forem?

- a tua mãe, Cristina

- o teu pai, António

- o marido, Gonçalo

- os avós, Marília, Gustavo, Luísa e José

- a tua irmã Carlota e os teus irmãos, João e André

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"Nós — e eu falo porque sou um velho, tenho 85 anos… nós, os velhos, devemos pensar que a nossa situação é igual à das outros. E se alguma coisa há, é a obrigação suplementar de dizer aos outros que isto já aconteceu, que se ultrapassou, que [esta crise] vai ser ultrapassada”, começou por dizer, reforçando depois o apelo: “Nós, os velhos, vamos ser os primeiros a dar o exemplo. Não saímos de casa, recorremos sistematicamente aos cuidados que nos são indicados e mais, quando chegarmos ao hospital, se for necessário oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos”.

 

E se não souberes nadar, faz do casco a tua esperança e da vela a nossa fé.

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3 comentários

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V de Viver a 06.04.2020

Caramba!

QUE TEXTO!

Nada mais a dizer, você disse tudo. Parabéns pelas palavras sinceras e verdadeiras.
Não consigo concordar mais com aquilo que disse.

Fantástico.
Cuide-se!

Um beijinho, V
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Anónimo a 06.04.2020

V, sei que nos dizem para mantermos a distância de segurança, mas prefiro um “cuida-te” a um “cuide-se”. Não faz falta tratar por você
Stay safe! Beijinho
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V de Viver a 06.04.2020

Com certeza. E por aqui podemos estar "juntinhos" sem medo.

Sendo assim, cuida-te

Um beijinho, V

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