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O segredo de 2020

por amorlíquido, em 23.04.20

Hoje, 23 de Abril, página 114 de 366. Um quarto capítulo repleto de intensidade. Nunca no preâmbulo desta viagem teria na imaginação uma fertilidade capaz de antever tamanha reviravolta. Desejei tudo como sempre. Que às tempestades as pudesse sentir antes de, em mim, se fazerem chorar. Quis os sorrisos multiplicados do antigamente e que as dificuldades dessa instância se tivessem perdido pelo caminho, sem a sabedoria suficiente para regressar.

Tudo me pareceu estranho naquelas notas iniciais. Um primeiro capítulo onde todas as 8 biliões de personagens se sentaram diante de mim, olvidando quaisquer apresentações individuais. Algumas sabia serem minhas, outras uma parte de mim. Todas pertencentes a uma esfera em comum. Com rostos vulgares, nomes desconhecidos, histórias arrepiantes e uma vida ainda por desenhar. Assim virei a página que abria portas ao capítulo segundo, o mais curto dos doze por completar, mas de um enredo interminável. Perguntei-me porquê. Como seria possível a essência daquele tempo perdurar além das suas margens tocáveis por nenhum de nós? Com o coração apertado, o fôlego prestes a sucumbir, sabia que algo estava errado. A procura constante de uma lógica argumentável não me permitia crer em tal irracionalidade. 

Foi na página 60, nas primeiras palavras daquele parágrafo de um terceiro começo, onde tudo desabou. Um passeio longe de ser feliz. Sabia certamente ser o prelúdio de um livro que se publicou cedo demais. Numa sociedade global apartada pelos idiomas que as dividem. Num universo onde os iletrados são mais que muitos, tanto os que em consciência o admitem como os que, por vergonha, fingem não reconhecer. Mensagens demasiado profundas, não indecifráveis, porém exigentes de um tempo não conseguido. 

Uma guerra sem fim à vista. Cada letra ao papel abraçada é uma bala que irrompe num cenário desprotegido e no qual as diferenças sobressaem inequivocamente. Cinquenta e quatro dias depois, mantém-se a incerteza de um futuro que não sabemos se foi passado ou é presente. Emerge a pobreza dos mais frágeis, a altivez dos mais insensatos, numa luta sangrenta onde não vemos de onde surgem os disparos.

Hoje, na página cento e catorze, 185 mil das personagens principais já nos deixaram. Uns no cume da jovialidade, outros a favor de uma curva ingratamente descendente. Sem cor, sem idade. Alheio às origens semelhantes, tanto como à disparidade do que guardam no bolso. Levaram consigo histórias admiráveis, sofrimentos incomparáveis. Levaram vida. A mesma que, aqui, desvaneceu. Na terra cavada, no suor da desidratação. Levaram-se deixando muito de si. Nos desabafos que escreveram, nas organicidades que conceberam. Talvez nos amores não consumados, nos perdões não concedidos, nos arrependimentos que insistiram guardar. Seguramente nos contornos que ficaram por despedir. Aqueles, de carne e osso, que o solo que sempre pisámos haverá de consumir. Todos eles. Que à distância os souberam voar, e que apesar dessa distância, lamentam a ausência do abraço no momento de partir. 

Um livro onde impera o drama, a ação e o terror. A comédia suporta a solidão e procuramos no romance dos que temos uma pausa na dor, uma ponte para a esperança. Livros que são o mundo. Este em que habitamos. Mal sabia eu que era a continuidade de uma obra não publicada, onde as últimas páginas faziam adivinhar a tormenta da pior saga.

Desconfio que o epílogo trará a urgência da mudança. Não nas letras desenraizadas por cada um dos que soubemos fugir. Mas talvez na pragmática das ideias, na sintaxe das ações e, sobretudo, na semântica da existência.

 

Feliz Dia do Mundial do Livro!

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6 comentários

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Luísa de Sousa a 23.04.2020

Tão bonito!!!

Beijinhos
Feliz Dia Mundial do Livro
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amorlíquido a 23.04.2020

Obrigada Luísa!
Feliz Dia
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Milord a 23.04.2020

Uma excelente ideia, um texto magnífico.
Parabéns.
Quem disse que não há bons escritores na blogosfera?
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amorlíquido a 23.04.2020

Obrigada pelas palavras!
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Ana a 23.04.2020

Escreves muito bem!
Parabéns.

Beijinhos

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