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Gente sem nome

por amorlíquido, em 06.10.20

Sou das que acredita no tempo. Na sua passagem e nos seus valiosos silêncios. Sempre fui amante de calmarias, da esperança que vive espelhada na agitação de um reflexo. Esse, que flui entre simetrias do que devolve. 

Há quem se entregue numa fusão irreversível. E da unidade criada algum dia, fogem os medos do desaconchego e da certeza de que a liberdade nos corrompe, numa clausura cujos limites tocam a inexistência e o espaço que se abre no vazio guarda tudo o que nunca chegámos a querer. 

Assim se vive. À deriva do que maltratamos, inseguros com as mágoas do futuro porque, às do passado, não as soubemos falar. De dentro para fora, ao que pertence a um mundo que não aquele que se abriga em nós. A viagem segue a sua hipócrita continuidade, em caminhos encruzilhados de destino incógnito. Pisam-se almas parceiras, mentes guerreiras, numa luta egoísta onde o respeito falece no instante em que percebemos a oportunidade de prevalecer. As pernas musculadas avançam num corpo tricolor onde, seguramente, o coração perdeu a sua vivacidade. A frieza despe a bondade e o altruísmo abandona a conquista dos ascendentes. 

Mas, sou das que acredita no tempo. Que nem sempre o vento é prelúdio de tempestade. O frenesim da substância alheia balança em arquiteturas frágeis, quase sempre estilos barrocos que se autoproclamam Art Déco. Tantos são os momentos de loucura que a essência sísmica de cada um estremece o que ousamos fazer intocável. Todos. Do seu modo. Com uma subtileza intervalar ou um desaforo constante. 

E assim vamos vivendo. Escondidos dos que se escondem de nós. Tu e eu. A verdade. A simplicidade em tudo o que a semelhança nos aproxima. E os outros, eu e tu, vagueamos imersos numa esfera autocentrada. Ironias. Focamo-nos no espelho que nos pertence, não para valorizar as singularidades que encontramos, senão apenas para nos julgarmos pelas ausências do que os infinitos reflexos têm diferente de nós. Se a menos, ostracizamos. Se a mais, invejamos. Numa ovação cínica que irrita a pele da abnegação. 

Os anos passam e é esta a peça de teatro onde nos destacamos. Nem todos o alcançam, mas aos que logram chegar ao patamar do ser-se na primeira pessoa, deixando para trás a pluralidade das personagens que tentam, todos os dias, encarnar, o tempo chega, quase sempre, tarde demais.

 

 

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2 comentários

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Rute Justino a 06.10.2020

Amei o texto
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Ana de Deus a 11.10.2020

viva querida uma amante de calmarias que descreve tempestades! um turbilhão de emoções nada calmas. espero que estejas bem

abraço forte se precisares de serenar a alma

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