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Doze

por amorlíquido, em 29.01.21

Em janeiro caía a pedra

cinzenta e perdida 

naquela rua esquecida

entre chão outonal de fevereiro.

Folha a folha, um livro colhi

na imensidão das palavras que o solo trazia

todas elas fui escrever 

para mais tarde nascer

o março no meu jardim.

Ó caríssimo amigo que já espreitavas

pelas manhãs ingénuas de charme hostil

foste tu meu companheiro

das noites a corpo inteiro

que roubava o sol de inverno

o cheiro e calor terno

amor disfarçado de abril.

Pestanejei e não ver voltei

a não ser o novo maio

que é quente e tão solteiro

brincando com o meu lamento

pedi somente ao vento

que o guardasse longe de mim.

Junho e Julho são momentos de paixão

os corpos nus sob a verdade da lua

as roupas despidas no cachecol da vida

que tropeça e arremesa

porque quando a saudade é pressa

arderá em febre o coração.

Louco agosto que desgosto

essa mania de atenção

é o suor que pinga do rosto

como um dilúvio de sofrimento

mais que o corpo em esgotamento,

sente-se a alma em aflição.

Mas que rapidez, já cá estamos!

No mês de todos os regressos

onde nos olhares ficou impresso

os lugares aos quais não voltamos

em setembro recordamos

o sabor dos mil excessos.

Entre ténues gotas da chuva 

e as de desgosto seu,

lá em outubro a água perdia o rumo

e o amor que nasceu no mar

neste mês faleceu.

Ora novembro que se aproxima

com dezembro pelo canto do olho

voltam os dedos frios

embrulhando olhos em rio

pelo verão que já passou.

No paredão vejo o degelo

que a lareira há de trazer

depois de janeiro ter deixado

fevereiro feliz e enamorado

outros dez irão conhecer

as mãos que roubam ideias

ao céu, às flores alheias

quer faça chuva ou tudo seque

juventude verde leque

nesta nossa pele deixar-se-á adoecer.

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