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Até quando?

por amorlíquido, em 29.10.20

Vinte décadas cumpridas de um novo milénio, numa viagem que perdeu pelo caminho tanto do que nos torna humanos. A cooperação que outrora nos foi útil à sobrevivência, deu lugar à busca incansável por um elo mais fraco. Uma luta quase constante na qual a felicidade alheia, a muitos desconforta. Porquê?
Se a História nos ilumina acerca dos erros do passado, a educação deveria, hoje mesmo, alertar para a importância do futuro e de tudo o que ele acarreta. O tempo passa, as sociedades amplificam-se e a cultura influencia aquilo que os valores deveriam fazer evoluir. Mas onde nos perdemos nesta progressão?
Os "likes" estão agora à distância de um clique, embora os princípios ainda subjazam numa crença não ultrapassada do machismo e de um patriarcado muito questionável. Da gente que se teima arrumar em gavetas incolores porque a distinção mata. Os que encaixam e, todos os outros, que só em mentes pouco resolvidas em lado nenhum fazem parte.
Em que altura se esqueceu a tolerância e a compaixão? O mundo continua a parar para discutir não-assuntos. Não porque sejam irrelevantes, senão porque a desvalorização não deveria existir à partida. A etnia, a origem, as questões de género, a violência sexual. Onde foi que se aprendeu a denegrir e agredir tudo e todos os que se desviam do padrão por ninguém instituído? Quem ensinou que a heterossexualidade é a face certa da moeda e, portanto, as demais orientações podem e devem ser ostracizadas? Onde se leu a falácia de que o romance serve, única e exclusivamente, o interesse da procriação?
Afinal, que epidemia deteriorou a coragem para destoar do normativo, em prol do respeito e da aceitação? Assusta-me que a pretensão de julgar o outro amadureça muito antes da capacidade que temos para gostar de nós.
Uma temática que cruza quaisquer fronteiras geográficas, porém aqui, neste retângulo que se autoproclama como democrático, a liberdade continua a ser interrompida quando algo diverge da uniformidade. Defendemos querer avançar, todavia continuamos acoplados a ideologias, não pelo conteúdo que as move, senão como uma jura partidária de um clube ao qual se deve pertencer até ao instante último anterior a qualquer morte. Até quando?
A quantos mais movimentos #metoo ou #blacklivesmatter iremos assistir? Quantas mais vezes a raça será um dos tópicos cuja necessidade de abordagem é tamanha que não escapa ao confronto político num debate presidencial de uma das maiores potências mundiais? Até quando irão as comunidades LGBTQI+ ser menosprezadas nos direitos pelos quais se vêem obrigadas a manifestar? Por mais quanto tempo irão as mulheres ser vítimas de assédio, importunação ou qualquer tipo de injúria de índole sexual? E até quando serão julgadas pela indumentária que envergavam quando situações destas acontecem? Quantas mais vezes se irá questionar um "não"? Não importa o minuto em que foi proferido, nem ninguém precisa de saber o que sucedeu previamente. Foi dito em algum instante? Sim? Então é não. Parou ali. Ponto final. Argumentos que dêem a entender o atiçar de pulsões incontroláveis não justificam atos que violem o direito de consentimento, seja em que circunstância for.
Vamos recuar um pouco. Desde que me conheço que sempre ouvi a lengalenga de que se um homem seduz e se mostra disponível, então é um garanhão, mas uma mulher nos mesmos preparos é, NO MÍNIMO, uma oferecida. Que tem ele a mais que ela? Nada. Nem ela a mais que ele. São iguais nos deveres e nos direitos também. A emancipação das mulheres não deve ser nunca vista como sinónimo de libertinagem, senão como aquele murro firme na mesa ou como aquela atriz que interpreta à luz dos holofotes. Foram demasiados os anos na penumbra, no assento da ingrata humilhação sob alçada de um argumento demasiado pobre: "porque és mulher".

Porque és mulher. Porque és preto. Porque és gay
Durante muito tempo o medo calou vozes, adiou sonhos e silenciou certezas de um amanhã melhor. Tarde nos apercebemos da multidão que chorava em uníssono, calados numa sombra da qual ninguém queria saber. Mas se até a noite faz o dia nascer, certo será que não há escuridão que se eternize.
Porquê este texto? Um desabafo. Pela revolta que me alimenta a raiva, tão simultaneamente como a impotência sentida perante profunda incompreensão. Pelo desejo, talvez utópico, de que os valores, os princípios, o caráter, acompanhem as revoluções tecnológicas, as sociedades liberais e as educações inclusivas, em vez de ficarem presos nas faíscas que, infelizmente, ainda saltam da fogueira dos Neandertais.

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