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Às vezes não há vida que nos agarre

por amorlíquido, em 22.06.20

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Não tenho o costume de me pronunciar sobre a vida de ninguém, muito menos quando só conheço aquilo que vejo de fora e que, muitas vezes, como nós sabemos, surge enviesado. Ainda assim, e pela magnitude do que o acontecimento representa, queria deixar-vos algumas palavras. 

Artistas também sofrem. Eles e os matemáticos. Os ricos e os pobres. Os negros e os brancos. Numa dicotomia que nada tem de antítese. Não importam as causas, os credos, as raças ou as ideologias. Antes de tudo, são humanos. Somos humanos. E envolvo-me, a mim, a si, a quem me leia, porque, enquanto passageiros desta viagem, todos somos suficientemente frágeis para padecermos. Não se enganem os que julgam impossível passar pelo mesmo. A vida tem essa particularidade de sabermos nada mais que o presente, somente o chão que pisamos. O de hoje. Diferente do passado que já não temos e muito distinto de um futuro ao qual, afinal, nenhum de nós pode afirmar conseguir chegar. 

A saúde mental continua a ser desvalorizada, menosprezada, muitas vezes criticada. Porque "tem tudo para ser feliz". Porque "olha à tua volta, vê o que tens e agradece". Porque "há quem esteja muito pior do que tu". Porque "há quem desse o mundo para ter aquilo que tu tens e que não valorizas". Porque, porque, porque ... E no meio de tantas conclusões feitas ao acaso, eu pergunto-me: " E porque não?". "Porque não eu?". "Porque não ela ou ele?". Há demasiados "porques" constatados e poucos que assumem a forma de interrogação. "Porque estás assim?". "O que está a acontecer para te fazer sentir isso?". "O que sentes na verdade?". "Como vês o dia de amanhã?". 

Sei que, muitas vezes, não se trata de desinteresse ou despreocupação por quem está de fora. Há pessoas que, imersas na dor, conseguem brotar o maior dos sorrisos, passando despercebido o que vai no mundo de dentro. É mais complexo do que aparenta, mas nem por isso merece menos o nosso cuidado ou atenção. E é por isso que gostaria de vos deixar duas notas:

1 - Aos que conhecem, lidam ou estão próximos de alguém que esteja a atravessar uma fase difícil, a quem notem um olhar empobrecido, um discurso desprovido de esperança, um isolamento invulgar, não invadam, porém não descuidem. Mostrem-se presentes, lá ao lado, com a capacidade de escuta que a pessoa precisa e não aquela que vocês estão dispostos a dar. Uma pessoa que se sinta fragilizada, amargurada, triste, com vontade de desistir, na crença de que nada mais vale a pena, necessita de quem a entenda, de que a ouça sem filtros nem preconceitos, que não atribuam frases tolas na tentativa vã de comparar sofrimentos. Todos somos diferentes, as bases de construção não são as mesmas, e as ferramentas que vão sendo limadas à medida das vivências, para com elas saber lidar, são muito fruto do mundo que conhecemos, da forma como ele nos é/foi apresentado, dos exemplos que aprendemos a seguir. Não se esqueçam: aquilo que acontece no mundo, o mundo inteiro sabe. Aquilo que acontece no nosso mundo, só cada um o conhece. Não há espaço para julgamentos nem estigmas. Abertura, disponibilidade, tempo, carinho, presença, amor e aceitação. A 200%. Sempre. 

2 - Aos que tenham sentido ou que continuem a sentir que não há lugar para o espaço que ocupam, que sempre tenha existido, no vosso interior, uma sensação de descrença por tudo, de não querer, não desejar, um vazio que consome a carne e os sonhos, a força de poder acreditar, peçam ajuda. Se sentirem que não fazem parte, que não se encaixam, que aquilo que estão a atravessar não tem solução e o melhor é acabar com a dor que vos inflama e deixar a alma descansar, peçam ajuda. Qualquer que seja o motivo, peçam ajuda. De um familiar, de um amigo próximo, de um profissional. Falem, desabafem tudo. Pedir ajuda não é nem nunca será sinónimo de fraqueza, antes pelo contrário. É a coragem que emerge do mais profundo, do cansaço extremo, do reerguer para uma nova oportunidade. É colocar no mundo não nosso, o peso que vos encolhe por dentro. Não há medo nem vergonha. Do outro lado terão apoio e abraços de compreensão. 

E porque os que conhecem hoje, podem vir a sentir amanhã. Ou porque os que ontem sentiram, podem hoje conhecer alguém, deixo, a ambos, linhas para poderem pedir ajuda num momento mais imediato, onde vos ouvirão e irão orientar-vos. Não importa o vosso nome, a vossa idade ou de onde vêm. Lembrem-se: são humanos. Somos humanos.

Linha Jovem - 800 208 020 

Linha LUA - 800 208 448

Linha SOS Bullying - 808 962 006

SOS Estudante – 96 955 45 45 ou 808 200 204

Telefone da amizade – 228 323 535

S.O.S. Adolescente - 800 202 484

Conversa Amiga – 808 237 327 

Linha SOS Palavra Amiga -  232 42 42 82 

Centro SOS-Voz Amiga: ajuda na solidão, ansiedade, depressão e risco de suicídio
Telef.: 21 354 45 45
Telef.: 91 280 26 69 
Telef.: 96 352 46 60 


 

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6 comentários

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Maria a 22.06.2020

Um excelente alerta!
Boa semana.
🌻🌞
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amorlíquido a 22.06.2020

O alerta que o mundo ainda precisa! Uma boa semana
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cheia a 22.06.2020

Um excelente Serviço Público!

Boa noite
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Isa Nascimento a 25.06.2020


"...todos somos suficientemente frágeis para padecermos"
Sentida, assertiva, profunda... adorei esta partilha
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amorlíquido a 25.06.2020

Felizmente, ou infelizmente, assim é
Obrigada Isa! Um dia bonito

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