Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]


Afinal, vai ou não ficar tudo bem?

por amorlíquido, em 11.05.20

Há dois meses, o mundo já fazia anunciar a entrada numa etapa diferente. Recordo ver as notícias vindas de Wuhan quando surgiram os primeiros casos, quando um hospital foi construído em 10 dias para dar resposta aos inúmeros doentes já infetados, quando apareceram as primeiras teorias sobre a possível origem do que seria, ainda longe do nosso conhecimento, uma pandemia capaz de deixar o seu cunho na História de um planeta virado do avesso. 

Não foi esta a primeira e muito provavelmente não será a última. Porém, em pleno século XXI, não eram muitos os que tinham presenciado algo destas dimensões, meio que saído de páginas tão amarelas quanto enfraquecidas, que permanecem intactas somente para que os acontecimentos que relatam não sejam nunca esquecidos. 

Recordo a ansiedade das primeiras semanas em que sentia o impulso para ligar a televisão e ouvir quantos novos casos tinham surgido nas últimas horas, ainda sem saber o significado dessa alteração, qual o impacto que esses números teriam a todos os prazos. Tempos em que a informação se focou num tema apenas, as notícias chegavam dos vizinhos europeus, numa tragédia que, embora além fronteiras, nem por isso tranquilizava o coração. Sofremos por nós e por todos os que não eram nossos. 

E então, algures no meio de um desespero disfarçado, começámos a ouvir as palmas nas janelas, os concertos a partir de casa, os cânticos nas varandas, as iniciativas e reinvenções, a essência de ser humano. Sei, sei que muitos foram os que se aproveitaram das circunstâncias para tirarem proveito próprio, que olharam para si e para o que poderiam lucrar com a fragilidade dos outros ... mas esses não merecem o meu respeito e sobre eles não pretendo demorar. Também sei dos que criaram notícias falsas para alarmar e induzir em erro, dos que apelam a remar ao contrário quando o sucesso depende do esforço num só sentido. Infelizmente, o ser humano, apesar das qualidades que a sua natureza envolve, é capaz de atos suficientemente distantes do que a compreensão e a racionalidade podem alcançar. Mas, como disse, sobre estes também não me vou prolongar.

Não, também não quero debater sobre o orgulho que já, outrora, mencionei a respeito de todos os profissionais das diferentes áreas que têm dado o corpo e a alma a este tempo que vivemos. Gente que se adapta e reajusta. Aos que estão na linha da frente mas também aos que ficam em casa. Claro que é mais fácil ficar em teletrabalho do que lidar, todos os dias, com o possível contágio, com a proximidade, com o medo que parece estar à espreita a cada gesto feito, a cada passo dado. Mas os que ficam em casa também são gente, gente que sente o mesmo medo, tem as mesmas dúvidas, sofre com as mesmas incertezas. Gente que se desdobra no trabalho para a empresa, na atenção às aulas dos filhos, tudo intercalado com a confeção das refeições, com a lida da casa, alguns com a assistência que, de vez em quando, têm de dar à mãe ou ao pai velhotes, para que tenham o que comer, para que não se sintam abandonados. 

E estes são todos aqueles que ainda trabalham. No entretanto, muitos foram os que tiveram de ficar em casa porque ao trabalho já não tinham de voltar. No meio de falências e insolvências, houve quem temesse o futuro mais que o vírus, receando continuar a vida mesmo com a perda da dignidade. 

Vocês perguntam-me: então, mas perante tudo isto é mais que óbvio que não pode ficar tudo bem. E eu vou-vos dizer que, talvez, há 2 meses, fosse capaz de vos dar razão. Hoje não. Nas primeiras semanas tentava fugir das notícias, da televisão, da rádio, de tudo aquilo que me pudesse colocar mais perto do confronto com a tristeza, com a morte, com a descrença, com a pobreza. Indignava-me com os discursos políticos aberrantes, revoltava-me com a injustiça e... desligava tudo. Era essa a minha defesa. Até descobrir que estava demasiado focada em mim, não no que sentia senão no que não queria sentir, não no que eu pensava mas no tudo que nunca questionei não ter como garantido. Foi um processo que durou muitas semanas, muitas horas a respirar fundo, a meditar, a escrever, a reconhecer, a chorar também, procurando olhar para além de mim, para fora do que existe dentro, para a real realidade. 

E as notícias que me assustavam pelo medo congelante de que tal se passasse com os meus, passaram a inspirar-me, a motivar-me. Tanto as das pessoas que estendem a mão e dão o melhor que têm, com amor, aos que mais precisam, como aqueles que, apesar da fome e da miséria, sorriem à esperança. Os que não têm nada, e do nada que possuem, fazem o bastante para sobreviver. Sem lamentos, aceitando e agarrando-se à luta, numa batalha onde querem apenas ganhar o pão. 

Se vai ficar tudo bem? Talvez não, mas o segredo para tal resposta estará naquilo que fizermos com o que de menos bom nos aconteceu. Todos nós vamos ter de combater muito para que voltemos a conhecer a "normalidade". Uma entrega coletiva que não tem (ou não deveria ter) espaço para espertezas individuais. Queremos chegar longe. Não importa quem chega primeiro. Aquilo que vai mudar, se mudar, em primeiro lugar, será dentro de ti. De mim. De nós. "Ah...porque as pessoas vão continuar a ser egoístas, a pensar nelas em primeiro e em último lugar. Ah...porque vamos voltar todos a ser como sempre fomos. Ah...porque a essência não vai mudar. Sempre fui assim e sempre continuarei a ser" Provavelmente não. Mas uma possibilidade encerra em si a oportunidade de uma certeza, não é? Se 1% mudar, os que mudaram possuem em si 100% da mudança. Só que a vida não são números. Não importa quantos mudam, se muitos ou poucos. 

Importa a verdade da transformação. Importa aquilo que fazemos com essa metamorfose. Implica olharmos no espelho, vermos além do que é possível observar. Implica uma viagem no interior do que sempre fomos. Implica repovoar mundos empobrecidos por uma visão auto-centrada. Implica olhar para as mãos e ter consciência do alcance dos dedos. Estes que terminam no limiar do universo orgânico que nos preenche e invadem o ar cuja ausência nos faz sucumbir. Importa saber a força do que suportam, assim como o peso que ainda podem abraçar. 

Mudar. Mais que queremos a mudança nos outros, é arriscarmos a nossa mudança. Reconhecer que podemos ser melhores, que o lápis com que nos fomos escrevendo está carente de carvão. É preciso insistir com a certeza do que queremos naquele instante, reforçar as linhas que nos contornam e, quem sabe, desenhar novas raízes. O mundo sempre será uma parte de nós muito mais do que nós seremos, alguma vez, parte do mundo. Ao mudarmos a nossa perspetiva das coisas, o nosso olhar, as nossas convicções, a nossa cognição irá assimilar e fazer repercutir em ações. Onde estamos e para onde iremos. Não no espaço que pisamos. Quem sabe no geografia do existir. 

Nós existimos, somos e antes de nos acontecermos, modificamo-nos. Que todos possamos mudar qualquer coisa em nós. Que mudemos para melhor. E que, nessa mutação, façamos do mundo um lugar melhor. Não aquele que habitamos senão o que habita em nós. É o único universo que nos pertence e o único que nos distingue. 

Talvez aprendamos a olhar para o outro, sabendo que ele cabe cá dentro. Talvez aprendamos que, por muito que tentemos, os sapatos dos outros jamais nos servirão. Compreender, ajudar, aceitar e devolver o que não somos. Respeitar e valorizar tudo o que temos. 

Autoria e outros dados (tags, etc)


4 comentários

Imagem de perfil

Triptofano! a 11.05.2020

"Talvez aprendamos a olhar para o outro, sabendo que ele cabe cá dentro. Talvez aprendamos que, por muito que tentemos, os sapatos dos outros jamais nos servirão. Compreender, ajudar, aceitar e devolver o que não somos. Respeitar e valorizar tudo o que temos."

As tuas palavras inspiraram-me. Sinto que tenho sempre o potencial da mudança dentro de mim mas a inércia do que já conheço mesmo não gostando é mais forte. É como quando sabemos que devemos deixar de apertar uma borbulha e colocar um creme mas quando damos conta já temos a cara numa verdadeira ferida.
Imagem de perfil

amorlíquido a 12.05.2020

É isso mesmo. A inércia dificulta muito, mas nem por isso deixa de ser possível.
Obrigada pela visita e pelas palavras, de coração!

Feliz Dia

Imagem de perfil

bii yue a 12.05.2020

O último paragráfo é resumo e conclusão perfeita
Há muito para mudar, novos hábitos a adquirir.
Imagem de perfil

amorlíquido a 13.05.2020

Há mesmo, tens toda a razão!

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D