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A crise do "... e depois logo se vê"

por amorlíquido, em 28.03.20

Caríssimas e caríssimos, hoje deixei de lado as minhas reflexões pessoais que decorrem de um pensamento frequentemente abstrato, para debater um tema que me apoquenta ligeiramente: a crise do "...e depois logo se vê". Poderia começar pela própria experiência de ser humano e de como essa perspetiva surge associada ao modo de estar e de viver de tantos parceiros dessa bonita espécie cuja pertença compartilhamos. Indo mais longe, poderia fazer juízos de valor sobre o ténue limiar que existe entre o "logo se vê" futuro e o a priori do não querer saber senão do presente. No entanto, vou focar-me nas relações humanas, em particular, nas relações amorosas. Aqui não importam raças, idades nem orientações, mas somente o laço que eventualmente une duas pessoas.

Esse vínculo. Digam-me, por que motivo parece cada vez mais frágil? Por que razão se tornou facilmente descartável? Onde foi, no percurso da humanidade, que o amor se tornou uma opção talvez secundária, trazendo o consumo fugaz e carnal para lugar de destaque? Onde nos perdemos?

Não quero, com isto, empurrar o sexo para os últimos lugares do pódio dos aspetos que não permitem o falecimento daquela chama inicial, porém, qual foi o momento em que o verdadeiro amor tropeçou na inversão dos valores e das prioridades humanas, recuando para posições onde, nem sempre, o seu reconhecimento é valorizado?

Sou demasiado apaixonada pela vida para acreditar que uma relação resiste à ausência de erotismo e corporalidade, contudo igualmente cética para subscrever que é o toque da pele que abre portas à oportunidade, como se elas permanecessem necessariamente fechadas caso a faísca principiante sentisse dificuldade em se fazer notar. 

Sexo é sexo. Amor é amor. Existe sexo no amor. Mas no sexo não há necessariamente amor. É simples. São duas águas que arduamente se separam. Por isso é que é, para tant@s, tão difícil envolverem-se fisicamente com alguém sem que floresçam outros sentimentos e vontades. E, também por isso é que ouço tantas vezes dizerem que, do sexo só pelo sexo, fica o prazer do instante e o vazio constante. Porque fica a metade de um todo que todos, mas mesmos todos, queremos, precisamos e procuramos completar.

Assusta-me ter consciência (e conhecimento) de relações que começam na base do "talvez goste", "talvez aceite", "talvez descubra", "talvez", "talvez", "talvez amanhã". Hoje quero "curtir", aproveitar e "depois logo se vê". Atenção! Sou apologista de que nenhuma relação, no começo, por muito que ambas as pessoas estejam interessadas e disponíveis, que isso seja receita infalível para uma fórmula duradoura. Há contratempos, há imprevistos, há descobertas do "outro" que só o tempo nos permite conhecer. Enfim, existe um batalhão de razões que podem explicar uma menos boa resolução, ainda que primeiramente tudo parecesse a coisa mais eficaz e matematicamente acertada do mundo.

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Aquilo que tenho dificuldade em compreender é o engate por desporto. "Porque não me apetece passar a noite sozinho"; "Porque me sinto só"; "Porque quero ir para a cama com alguém só porque sim"; "Porque apostei com um amigo"- também já ouvi. E depois? Então, depois logo se vê - dizem eles e elas. Não estou em condição de julgar ninguém nem nunca tive essa pretensão porque a vida dos outros só a eles mesmos diz respeito, mas sinto alguma tristeza em aperceber-me desta realidade. Em sair à noite com um grupo de amigos, estarmos descontraidamente a conversar num bar, e sentir que somos (uns mais que outros) carne no assador, a deixar que o líquido da fome desça, lentamente, a favor da gravidade. É desconfortável. 

Porque sabe a pouco, estou em crer. Por muito tórrido e memorável que seja, no dia seguinte, quem nos abraça antes do despertar? Quem nos protege antes do dia começar? Quem nos faz sentir invencíveis por muito que o mundo lá fora pareça descambar? Ficam as lembranças adicionadas a um álbum de vivências tão incrivelmente escaldantes como passageiras. 

Falta a cumplicidade nos olhares mudos que se compreendem. Falta a magia do, às cegas, caminhar na mesma direção. Falta a luta do querer muito mais.

No depois que se torna presente, cresce a incerteza como na ingenuinidade de uma criança. Sem o abraço, o conforto, o amasso. Fica somente o sorriso do então descoberto e a vontade da repetição. No hoje. Ou no amanhã. Pouco importa, na verdade. O corpo agradece ao sentir o sol nascer e a mente novamente esquece o que a lua insistiu dizer: depois logo se vê. 

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2 comentários

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Dr. Doutor a 28.03.2020

A gratificação instantânea e o ter tudo à distância de um clique trouxe esta volatilidade nas relações, na minha opinião. Um vazio emocional intermitente leva as pessoas a procurar noutros sítios aquilo que elas não encontram. Falamos nas redes, mas não sabemos comunicar. Mais depressa contamos os nossos problemas a alguém do outro lado do telemóvel do que a um familiar. Se estou só e aborrecido, tenho apps que me preenchem este vazio. Se o meu relacionamento tem problemas, que se lixe, há mais por aí... E assim seguimos... Obrigado pela sua reflexão, já tinha notado algumas coisas que referiu!
Um bem-haja
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amorlíquido a 28.03.2020

Obrigada eu pelas palavras!

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