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Para bom entendedor ...

por amorlíquido, em 13.05.20

... meia palavra basta! 

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Relógio do Tempo

por amorlíquido, em 12.05.20

Hoje, sento-me aqui. Na perpendicularidade imperfeita de um momento, na divisão geométrica de um pedaço de tempo que, brevemente, encontrei. Fito o horizonte de números que se introduzem diante de mim, num tiquetaque incessante, e o meu olhar converge numa metade de dois círculos inacabados, talvez esquecidos na criatividade saltitante de um qualquer pincel.
Sinto-me dentro de algo sem que essa certeza abstrata me pertença. E, por isso, questiono-me: Seremos donos do tempo? Seremos uma parte dessa imaterialidade? Ou o tempo será a nossa essência?
Poderemos pensar que contornamos essa matéria impalpável a que chamamos…tempo. Um paradoxo do qual, ingenuamente, nos convencemos. O tempo encerra em si mesmo o pináculo do não corpóreo. Sem cheiro, sem sabor, sem margens tocáveis, porém corremos atrás desse tempo, tentamos agarrá-lo sem que o deixemos fugir. Porque mais que o desejo de controlar, está o receio do descontrolo. Mais que a vontade de o conhecer repetidamente, está o medo de não o viver completamente.
Mas, seremos realmente donos do tempo? Como ter a posse do não visível se não detemos tudo quanto fomos construindo em nós? Enquanto o meu desabafo se desenrola, o meu corpo escorrega agora para um abraço com o tão famoso número da sorte. A simetria desvaneceu num ângulo defeituoso, onde o conforto deu lugar à preocupação do precipício.
Pensou alguma vez em si enquanto uma ínfima partícula de um universo inexplicável? Para mim, cada ser humano é a milésima parte de um mistério escasso de sentidos, que se alimenta do nosso significado. Um comboio cujo movimento é permanente, nos carris intermináveis que é a História. Em algum momento, surgimos nós, como espécie e enquanto indivíduos independentes. Antes de si viveram tribos indígenas entretanto extintas, soldados que, entre guerras declaradas, lutaram pela liberdade. Depois de si, muitas crianças continuarão a morrer à fome, mas também os seus bisnetos irão casar e multidões gritarão em silêncio para ter voz. Tudo tem a outra face da moeda, e aquela que escolhemos para refletir o sol não determinada nada, porque amanhã a moeda cai, gira e o mundo transforma-se…..afinal, parece que é (tudo) uma questão de tempo.
Mais do que o que temos, somos do verbo “ser”. Somos tempo e tempo não temos: curioso, não é? Somos a carruagem em que entramos quando nascemos e aquela em que estamos no momento do desembarque. O trajeto é aquilo a que, acertadamente, chamamos Tempo.
Poderemos, então, ser parte de um tempo enquanto tempo que também não deixamos de ser? Chegamos na obtusidade de uma fração de segundos e despedimo-nos quando nenhum obstáculo se opõe à nossa queda. No entretanto, somos tempo, do nosso tempo, durante o máximo de tempo que o então tempo nos permitir.
A resposta eu não sei. A lógica destas reflexões existirá seguramente no interior de cada um de vós. Há, contudo, algo do qual eu desconfio: entre um quarto de doze e a metade de quatorze existe a verticalidade pela qual, há pouco, fingi não passar. Deu conta? É nesse ângulo raso que a nossa essência termina e os abraços se desenlaçam. Quanto ao tempo, deixamos aquele onde, inicialmente, batemos à porta e levamos connosco o que sempre esteve em nós.

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Afinal, vai ou não ficar tudo bem?

por amorlíquido, em 11.05.20

Há dois meses, o mundo já fazia anunciar a entrada numa etapa diferente. Recordo ver as notícias vindas de Wuhan quando surgiram os primeiros casos, quando um hospital foi construído em 10 dias para dar resposta aos inúmeros doentes já infetados, quando apareceram as primeiras teorias sobre a possível origem do que seria, ainda longe do nosso conhecimento, uma pandemia capaz de deixar o seu cunho na História de um planeta virado do avesso. 

Não foi esta a primeira e muito provavelmente não será a última. Porém, em pleno século XXI, não eram muitos os que tinham presenciado algo destas dimensões, meio que saído de páginas tão amarelas quanto enfraquecidas, que permanecem intactas somente para que os acontecimentos que relatam não sejam nunca esquecidos. 

Recordo a ansiedade das primeiras semanas em que sentia o impulso para ligar a televisão e ouvir quantos novos casos tinham surgido nas últimas horas, ainda sem saber o significado dessa alteração, qual o impacto que esses números teriam a todos os prazos. Tempos em que a informação se focou num tema apenas, as notícias chegavam dos vizinhos europeus, numa tragédia que, embora além fronteiras, nem por isso tranquilizava o coração. Sofremos por nós e por todos os que não eram nossos. 

E então, algures no meio de um desespero disfarçado, começámos a ouvir as palmas nas janelas, os concertos a partir de casa, os cânticos nas varandas, as iniciativas e reinvenções, a essência de ser humano. Sei, sei que muitos foram os que se aproveitaram das circunstâncias para tirarem proveito próprio, que olharam para si e para o que poderiam lucrar com a fragilidade dos outros ... mas esses não merecem o meu respeito e sobre eles não pretendo demorar. Também sei dos que criaram notícias falsas para alarmar e induzir em erro, dos que apelam a remar ao contrário quando o sucesso depende do esforço num só sentido. Infelizmente, o ser humano, apesar das qualidades que a sua natureza envolve, é capaz de atos suficientemente distantes do que a compreensão e a racionalidade podem alcançar. Mas, como disse, sobre estes também não me vou prolongar.

Não, também não quero debater sobre o orgulho que já, outrora, mencionei a respeito de todos os profissionais das diferentes áreas que têm dado o corpo e a alma a este tempo que vivemos. Gente que se adapta e reajusta. Aos que estão na linha da frente mas também aos que ficam em casa. Claro que é mais fácil ficar em teletrabalho do que lidar, todos os dias, com o possível contágio, com a proximidade, com o medo que parece estar à espreita a cada gesto feito, a cada passo dado. Mas os que ficam em casa também são gente, gente que sente o mesmo medo, tem as mesmas dúvidas, sofre com as mesmas incertezas. Gente que se desdobra no trabalho para a empresa, na atenção às aulas dos filhos, tudo intercalado com a confeção das refeições, com a lida da casa, alguns com a assistência que, de vez em quando, têm de dar à mãe ou ao pai velhotes, para que tenham o que comer, para que não se sintam abandonados. 

E estes são todos aqueles que ainda trabalham. No entretanto, muitos foram os que tiveram de ficar em casa porque ao trabalho já não tinham de voltar. No meio de falências e insolvências, houve quem temesse o futuro mais que o vírus, receando continuar a vida mesmo com a perda da dignidade. 

Vocês perguntam-me: então, mas perante tudo isto é mais que óbvio que não pode ficar tudo bem. E eu vou-vos dizer que, talvez, há 2 meses, fosse capaz de vos dar razão. Hoje não. Nas primeiras semanas tentava fugir das notícias, da televisão, da rádio, de tudo aquilo que me pudesse colocar mais perto do confronto com a tristeza, com a morte, com a descrença, com a pobreza. Indignava-me com os discursos políticos aberrantes, revoltava-me com a injustiça e... desligava tudo. Era essa a minha defesa. Até descobrir que estava demasiado focada em mim, não no que sentia senão no que não queria sentir, não no que eu pensava mas no tudo que nunca questionei não ter como garantido. Foi um processo que durou muitas semanas, muitas horas a respirar fundo, a meditar, a escrever, a reconhecer, a chorar também, procurando olhar para além de mim, para fora do que existe dentro, para a real realidade. 

E as notícias que me assustavam pelo medo congelante de que tal se passasse com os meus, passaram a inspirar-me, a motivar-me. Tanto as das pessoas que estendem a mão e dão o melhor que têm, com amor, aos que mais precisam, como aqueles que, apesar da fome e da miséria, sorriem à esperança. Os que não têm nada, e do nada que possuem, fazem o bastante para sobreviver. Sem lamentos, aceitando e agarrando-se à luta, numa batalha onde querem apenas ganhar o pão. 

Se vai ficar tudo bem? Talvez não, mas o segredo para tal resposta estará naquilo que fizermos com o que de menos bom nos aconteceu. Todos nós vamos ter de combater muito para que voltemos a conhecer a "normalidade". Uma entrega coletiva que não tem (ou não deveria ter) espaço para espertezas individuais. Queremos chegar longe. Não importa quem chega primeiro. Aquilo que vai mudar, se mudar, em primeiro lugar, será dentro de ti. De mim. De nós. "Ah...porque as pessoas vão continuar a ser egoístas, a pensar nelas em primeiro e em último lugar. Ah...porque vamos voltar todos a ser como sempre fomos. Ah...porque a essência não vai mudar. Sempre fui assim e sempre continuarei a ser" Provavelmente não. Mas uma possibilidade encerra em si a oportunidade de uma certeza, não é? Se 1% mudar, os que mudaram possuem em si 100% da mudança. Só que a vida não são números. Não importa quantos mudam, se muitos ou poucos. 

Importa a verdade da transformação. Importa aquilo que fazemos com essa metamorfose. Implica olharmos no espelho, vermos além do que é possível observar. Implica uma viagem no interior do que sempre fomos. Implica repovoar mundos empobrecidos por uma visão auto-centrada. Implica olhar para as mãos e ter consciência do alcance dos dedos. Estes que terminam no limiar do universo orgânico que nos preenche e invadem o ar cuja ausência nos faz sucumbir. Importa saber a força do que suportam, assim como o peso que ainda podem abraçar. 

Mudar. Mais que queremos a mudança nos outros, é arriscarmos a nossa mudança. Reconhecer que podemos ser melhores, que o lápis com que nos fomos escrevendo está carente de carvão. É preciso insistir com a certeza do que queremos naquele instante, reforçar as linhas que nos contornam e, quem sabe, desenhar novas raízes. O mundo sempre será uma parte de nós muito mais do que nós seremos, alguma vez, parte do mundo. Ao mudarmos a nossa perspetiva das coisas, o nosso olhar, as nossas convicções, a nossa cognição irá assimilar e fazer repercutir em ações. Onde estamos e para onde iremos. Não no espaço que pisamos. Quem sabe no geografia do existir. 

Nós existimos, somos e antes de nos acontecermos, modificamo-nos. Que todos possamos mudar qualquer coisa em nós. Que mudemos para melhor. E que, nessa mutação, façamos do mundo um lugar melhor. Não aquele que habitamos senão o que habita em nós. É o único universo que nos pertence e o único que nos distingue. 

Talvez aprendamos a olhar para o outro, sabendo que ele cabe cá dentro. Talvez aprendamos que, por muito que tentemos, os sapatos dos outros jamais nos servirão. Compreender, ajudar, aceitar e devolver o que não somos. Respeitar e valorizar tudo o que temos. 

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Há um rio em mim

por amorlíquido, em 10.05.20

Se do que somos

a água nos soubesse mais que sua

quantas lágrimas choraríamos?

 

A pele fere-se na sua passagem 

e na efervescência dessa viagem 

perdemos

mais que as sombras e as tormentas,

abrimos mão de nós. 

 

Enquanto a cascata rugir

permaneceremos sós

na incompletude,

na finitude

na imperfeição corajosa

de nos sentirmos por dentro. 

 

Afinal, quantas lágrimas choraríamos 

se o sal desses medos 

incendiasse o deserto que tentamos possuir?

Talvez mas só talvez

no meio do que parece certo

a diferença possa ser também verdade

e a solidão ensine à essência 

que a virtude de um qualquer guerreiro

está em ser-se tempestade.

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Cascata de vírgulas

por amorlíquido, em 09.05.20

A fragilidade do amor está em poder ser (in)destrutível. Tanto permanece intacto após o festim de balas ditas inocentes, como se oferece num farrapo de costuras remendadas. A solidez vira transparência e a arma de arremeso torna-se na causa de todos os estilhaços de vidro. 

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Desafio de A a Z - letra "K"

por amorlíquido, em 08.05.20

Hoje, e porque já vamos na letra "K", o texto é da The Travellight World sobre Kebab. Uma viagem interessante numa altura onde nos pedem para não sairmos do nosso lugar. Já leram? 

 

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Fecho os olhos. Penso numa cidade distante, penso num lugar que ainda quero visitar. Imagino as pessoas que vou conhecer, as fotografias que ainda vou tirar, a comida deliciosa que quero provar. As lembranças param na comida. O rosto, antes triste, ilumina-se. A emoção volta ao peito.

Recordo as palavras de Anthony Bourdain “Comida é tudo o que somos. É uma extensão do sentimento nacional, étnico, da sua história pessoal, sua província, sua região, sua tribo, sua avó.”

Não posso voar? Tenho o dever cívico de ficar em casa? Ok, mas nada me impede de viajar nos sabores, de sentir os aromas de terras distantes. Comida é uma coisa que une as pessoas, não importa onde estejamos.
E faz diferença ir para além do prato, entender não apenas o que as pessoas comem, mas por que o comem e qual é a história por trás dos alimentos que preparam.
Algo que sempre me fascinou foi perceber as semelhanças entre as culinárias de países que estão tão distantes um do outro e pensar como certos ingredientes podem ser usados ​​de maneira diferente em zonas distintas do globo.

Abro os olhos e vou procurar uma receita caseira de Döner Kebab. Hoje para o jantar vou até Istambul :-)

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