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O que escondem os sorrisos

por amorlíquido, em 26.05.20

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Tantas são as vezes em que o mundo grita por dentro, num mundo outro que gira sem nos pertencer.
Pedidos de socorro que suplicam pela vontade de viver, numa essência frágil e não sentida.
Mas a vida chama, numa voz a que nos fingimos surdos. Porque o vento levaria consigo os remendos feitos à pressa, e o sol tornaria carne viva todas as cicatrizes que ainda tentamos esconder.
Para que nos vejam vestidos, com a compostura de quem é presente. E assim saímos à rua, com as calças feitas de orgulho, camisolas bordadas com a mentira de um olhar feliz. Assentes em sapatos que encontrámos no caminho e fingimos caber em nós. Num sorriso entregamo-nos e, quando regressamos, despimos a esperança, voltando à transparência do que nos contém.
Adoecemos e adormecemos com a lembrança do peso da máscara que insistimos carregar sobre o tudo que não conseguimos fazer existir.

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A coragem de nunca desistir

por amorlíquido, em 21.05.20

Vai sempre que o vento te empurre

Vai sempre que a chuva te atrase.

Se te disserem que sim, vai

 e se te disserem que não, volta a ir. 

Vai a dobrar.

Há quem ache que não vais conseguir,

aqueles que olharão para ti sem a coragem de arriscar

e mesmo que não tenhas ninguém a seguir

olharás quem te condena de longe,

porque quem nega sempre ficará em terra

e quem outrora te viu sorrir

ficará feliz por te saber voar.

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Pensamentos diários #6

por amorlíquido, em 20.05.20

O olhar dos que nos olham, devolvem-nos parte do que somos com muito do que não é de nós. 

São espelhos que mentem. Aqueles em que acreditamos. Os únicos onde podemos adoecer. 

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Pinturas abstratas

por amorlíquido, em 18.05.20

Reversíveis são as linhas que não escrevo

as que surgem sombrias

além do presente,

num hoje de silhueta vincada

distante do que há de crescer.

 

Entre caminhos que vão

e que voltam

de onde vim,

num todo fingidamente transparente

em consciência carbonizado.

 

São minhas estas formas sem margens

de limites ironicamente difusos 

perdidos num qualquer espaço e

em tempos que são tudo

aceitei-me ser menos que nada.

 

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A radicalidade do feminismo

por amorlíquido, em 16.05.20

Será que conhecemos o verdadeiro significado do que é ser feminista? E as atitudes radicais surgem intencionalmente ou por desconhecimento do tudo quanto alberga a sua definição?

Este é um tema que muito tem sido abordado, que muito tem sido criticado, chegando a dividir as próprias mulheres. Sempre me perguntei ... porquê? Haverá, efetivamente, um extremismo propositado na defesa dos direitos que a elas pertencem? E este, estando presente, em que medida decorre da crença nestas falácias? Porquê a expressão de desdém sempre que esta palavra vem à baila?

Feminismo e machismo embora possam, à partida, parecer antónimos, não o são. Poder e dominação encontram-se de costas voltadas com a igualdade, a equidade. Digam o que disserem, a desigualdade ainda está presente. Tem-se vindo a dissolver aos poucos, mas o trabalho pela frente é imenso.

Os manifestos não ambicionam a superioridade da mulher sobre o homem. Eu gosto muito dos homens, mas entristece-me que, muitas vezes, as mulheres tenham que se esforçar o dobro e o triplo para que possam alcançar semelhantes oportunidades. Porque carregam esse título, que é desejável para muita coisa, porém, ao mesmo tempo, sinónimo de fragilidade, de fraqueza, de inferioridade. Aborrece-me que as mulheres (aquelas que o fazem, claro) tenham de pensar no que vão dizer, em como se vão vestir, a forma como agem. Há as que se estão nas tintas e, a meu ver, muito bem, embora não por isso se livrem de julgamentos, ofensas ou discriminações. Tanto por parte de homens como de outras mulheres. Para quê? Com que intuito?

Não, as mulheres não querem dominar o mundo (pelo menos, não à custa de ódio ou de dizimação da classe masculina) nem ser inimigas dos homens. Não, as mulheres feministas não são necessariamente menos femininas. Não, não são só as mulheres que são feministas. Há homens feministas e mulheres machistas. Não depende do género mas das ideias que defendem e das convicções em que acreditam. 

Perdoem-me mas chateiam-me as pessoas que assumem as opiniões que têm de um modo revolucionário. Quaisquer que elas sejam. Que é tudo ou não é nada. Que vão além de lutar pelos seus direitos, menosprezando os outros, inferiorizando, quase que numa tentativa de machismo inverso, subordinando os homens às mulheres. Caramba! É assim tão difícil perceber que, sim, somos diferentes mas que essa diferença não significa que uns possam e os outros não? Antes pelo contrário, implica reconhecer que, na diferença, os contributos podem ser distintos, contudo, de valor idênticos. Que exista uma paridade no reconhecimento das competências, dos potenciais, das capacidades. Que exista dignidade no trato. Uma consciencialização e um apelo ao equilíbrio, sem fundamentalismos nem rivalidades. 

Não é, nem nunca foi, uma questão de supremacia do mundo feminino, chutando para canto os homens num intento fracassado de subjugação. É sim autonomia e liberdade. De ser, de ter, de lá chegar. Com o mesmo trabalho, o mesmo empenho, a mesma exigência. Sem diminuir os critérios nem afastar a meta. Não é uma guerra. Talvez um confronto. Para que se abanem mentalidades e conceções. Um protesto para que se escutem as vozes. Cientes da importância de contrariar o que se pretende oprimir. Cientes também de um caminho que deve ser feito o mais distante possível da extravagância do que é, e sempre será, excessivo. 

Caramba! Desculpem-me o palavrão mas...

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Mentes quadradas e o papel da educação

por amorlíquido, em 14.05.20

Sabem? Gosto de pessoas. Gosto muito. Gosto de ideias. Muito também. E adoro pessoas com ideias. Não ideias roubadas pela preguiça de ir mais além, muito menos ideias que são assumidas sem que se use o filtro da relevância, da sensatez, da criatividade, da reflexão e criticidade. 

Nos meus tempos de aluna na escola, perguntava-me frequentemente sobre a importância, ou mesmo a utilidade, dos conteúdos aprendidos. O porquê de termos de saber os constituintes da estrutura interna do planeta Terra, mas de nunca termos sido ensinados a pensar sobre diversas formas de arte. Atenção, não quero que os professores de Geologia me interpretem mal pois, apesar de não ser uma área que me cative particularmente, entendo a importância da assimilação para a bagagem da cultura geral. Mas onde quero chegar, e claramente faltei às aulas de Português sobre a capacidade de síntese, prende-se com a forma como as matérias são transmitidas, o modo como ocorre o processo de aprendizagem que, à primeira vista pode repercutir-se apenas nos resultados das avaliações, porém, e no meu entender, terá os seus verdadeiros efeitos mais à frente, na maneira de estar, de perspetivar, de olhar para as coisas e ser capaz de as analisar com um suporte suficientemente sólido que não permita que elas se desfaçam num simples confronto de entendimentos divergentes. 

Vai muito mais longe que as noções, as definições, as representações, as histórias. Eu não sou professora, sei que o que disser poderá pecar por uma generalização injusta e enviesada da realidade, contudo, enquanto estudante que fui e na minha experiência como tal, considero que as falhas não estão no imenso conhecimento que muitos professores possuem, mas na forma como o fazem chegar a uma turma, e a cada aluno individualmente. Falta (ou faltava na altura) o debate, o frente-a-frente, o colocar as crianças e os miúdos em situações do dia-a-dia, em que perante um tema, um assunto (relacionado com uma dada temática), se apresentam opiniões, pontos de vista, se aprende a justificá-los, a contra argumentá-los, a defendê-los quando o pensamento pessoal o acha fundamental, mas também a ajustá-lo, com vista a encaixar outras ideias que façam igual sentido. 

Isto porquê? Porque são muitas as pessoas adultas que não têm esta capacidade de encaixe, de adaptação, de ouvir o outro e de continuar amigo dele mesmo que tenha uma compreensão diferente da sua. Tal acontece no meu meio, mas também em muitos programas televisivos a que assisto, e nos quais o debate constitui tanto o ponto de partida como o de chegada. Por isso, pergunto-vos...em que momento acham que se constrói esse respeito e tolerância? São criados numa etapa crucial da vida ou é algo maleável e que pode ser adquirido num qualquer momento mesmo que, a priori, estivesse ausente? O que pensam disto?

Na minha opinião, existe, sim, um período crítico para a aquisição dessas qualidades e para a consolidação das mesmas na personalidade. Não que não possa ser mudado, porém, à medida que a maturidade aumenta e que se alarga a consciência do que é do próprio e do que é alheio, considero surgir uma inflexibilidade que dificulta que, por exemplo, uma intolerância existente seja substituída pela aceitação do que não vemos como alinhado com as nossas crenças e ideais.

Vou recuar ligeiramente. Um estudo realizado pelo Centro Médico de Einstein, EUA, a respeito da idade com que as crianças começam a utilizar dispositivos eletrónicos, os resultados demonstraram um intervalo entre os 6 meses e os 4 anos. Para além disto, e decorrente das perguntas que constavam no questionário, os investigadores conseguiram determinar que cerca de 30% dos pais permitiam e incentivavam que as crianças usassem este tipo de dispositivos para adormecerem. 6 meses? Antes de adormecerem? Li mal, acho eu. Só pode. 

Mas será que este uso excessivo de telemóveis, tablets e outros bens da mesma família, leva ao afunilamento das perspetivas individuais? Em primeiro lugar, diminui o contacto humano, o que, em última instância, empobrece a inteligência emocional. Já dizia o especialista Daniel Goleman que este abuso de utilização enfraquece a capacidade de introspeção e autoconhecimento. Há quem lhe chame a geração dos "bebés smartphones". E os que não são bebés? Porque este problema não é de agora. É certo que começam cada vez mais cedo, mas a frequência e regularidade com que usam os mais velhos tem vindo a crescer exponencialmente. Estará tudo isto relacionado? É uma suposição apenas, não tem qualquer fundamentação teórica nem científica, no entanto especulo sobre a eventual associação. Será?

Crianças e adolescentes que passam demasiado tempo nos meios digitais e redes sociais, para além das perturbações de sono, ansiedade, sociabilidade e afins, passam menos tempo a conversar, a discutir ideias, a escutar ideias, a aprender a ver o mundo de uma outra forma, de um ângulo talvez diferente. Não mais acertado, não necessariamente mais viável. Apenas diferente. Falta o contacto com o outro para que se consolide o respeito e a aceitação. E na escola? Os miúdos de hoje convivem nos intervalos, brincam, correm uns atrás dos outros, namoram, jogam à bola, ou mostram aos amigos a influencer "X" e o youtuber "Y"? Jogam o Minecraft e o Fortnite e explicam as estratégias uns aos outros? E elas, mostram às amigas o rapaz giro que, na noite passada, as seguiu no Instagram? E não, não há cá estereótipos de género...por mim as raparigas podem andar aos tiros na playstation e os rapazes podem ver tutoriais de maquilhagem se acharem isso interessante ... sem que tal signifique nada a seu respeito, nem de um nem de outro (mas isso era tema para outro post!). 

Que quando tenham 20 anos e quiserem passar 15h agarrados ao ecrã a ver tudo e mais alguma coisa, sem consumir absolutamente nada, é uma opção deles. Os pais poderão intervir mas continua a ser uma opção deles, a partir do momento em que tiverem um dispositivo na mão. O controlo é sempre possível, mas é mais complicado. Quando são mais novos, a tarefa talvez possa ser mais fácil. Ainda não têm a consciência do mundo real, do que se passa à volta deles, as escolhas passam muito pelas escolhas dos pais, pelo exemplo que eles dão, pelo que recomendam e aconselham. E se os pais deixarem os seus próprios telemóveis de lado e arranjarem tempo para brincar com a miudagem, se os deixarem longe da mesa (por favor! não comam com os telemóveis perto nem a ver as notificações constantemente!), é esse o exemplo que eles vão ter em casa, desde cedo, que vão assimilar, que vão tentar reproduzir noutros cenários (sala de aula inclusive) e que, aos poucos, vão interiorizando para si mesmos, para aquilo que querem e aquilo em que acreditam. 

Troquem as redes sociais pela conversa. Vão incutindo a importância de ver as notícias, de saber filtrar e interpretar aquilo em que se deve acreditar e tudo o que soa a falso. Peguem em temas da atualidade e discutam-nos à mesa. É óbvio que o debate terá de estar de acordo com o desenvolvimento cognitivo da(s) criança(s) em causa e não introduzir Nietzsche perante um ser com 5 anos. Mas façam-no! Tenham tema de conversa, pode ser sobre o dia na escola, o que aprenderam a matemática, a atitude do Manuel que bateu no João, ou o Diogo que levantou a saia à Carolina. Transportem esses acontecimentos que, provavelmente no contexto em que ocorreram foram inofensivos e sem intenções pensadamente maliciosas, para cenários realistas que acontecem no quotidiano. Procurem saber a opinião do(a) vosso(a) filho(a) sobre o assunto, a razão de ele pensar de determinada forma, dêem-lhe o vosso ponto de vista e façam-no pensar. Incutam neles a capacidade de reflexão e de ponderação, antes de argumentarem e no confronto com um argumento que não converge com a opinião que têm do tema. Aos poucos, essas sementes vão lá ficando. E é um ciclo que se auto alimenta. Alguém que gosta de pensar, de perceber as suas ideias, procura informação, cultiva-se, depara-se com outros pontos de vista, uns coincidentes, outros completamente ao lado daquilo em que acreditam, e isso leva a refletir novamente, a pensar, a perceber o que faz sentido e até pode ser aceite, e aquilo que não tem nexo e que, por isso, não merece concordância. E sempre, mas sempre, discordando ou não, aceitando ou não, o respeito tem de estar lá. 

Na escola, seria importante que os professores fizessem igual. Que esse estímulo fosse colocado no decorrer das aulas, pelo desafio de ouvir e adquirir, mas também de pensar, de questionar, de procurar saber mais, de tentar entender o porquê de ser assim. Porque não assado? Eu falo estando completamente às escuras sobre o desenrolar habitual das atividades letivas, mas, dos testemunhos que vou tendo, o processo continua a ser o convencional: "sentar, abrir o caderno, escrever o que se vai ouvindo, ler os slides, tirar dúvidas, fazer os exercícios propostos, corrigir, discutir, passar os trabalhos de casa e até à próxima aula". 

Abrir as nossas mentes depende de nós. Abrir as dos outros também pode depender de nós. Não formatar cabeças para que pensem como nós queremos ou como acreditamos estar certo, mas para que tenham a habilidade de perceber que o que é certo para um não é certo para outro, e que o facto de haver um certo diferente do meu, não significa que o meu certo seja errado ou que o certo do outro seja menos certo. São certos diferentes e estão errados na mesma medida. Isto é tão importante, porque abre caminho a que se desfaçam estereótipos, a que se desconstruam preconceitos, a que se aceite a diferença como diferença e não como inferioridade ou insignificância. 

Eu gostava, mas gostava mesmo, de olhar para as gerações mais novas e perceber como elas vêm interrogar-se sobre tudo. Como se interessam por debates políticos e são capazes de se posicionar tendo em conta as suas convicções e não por ser o partido A, B ou o "raio que o parta". Gente que se interessa pelo que acontece cá dentro e lá fora, que ouve várias fontes e que constrói uma ideia. Malta que vê os Prós e Contras e que, mesmo do sofá, pensa em formas giras e originais de dar resposta ao problema do que está a ser discutido em cima da mesa. Pessoas que aprendem a pensar, que apreciam fazê-lo, que são curiosas, desenrascadas, tolerantes, respeitadoras, compreensivas. Que se despem de construtos pré-concebidos, de intransigências e de arrogâncias.

Gostava tanto. E não perdi a esperança. De que sejamos rodeados por mentes cujos lados não se tocam, mentes que se contorcem de tanto matutar. Mentes que devaneiam, que sentem, que se exprimem e manifestam. Mentes irregulares. Daquelas sem ângulos. Vivos nem mortos. Que são uma linha disponível para ser pintada de qualquer cor, em qualquer direção. Não ao sabor da maré, mas que, mesmo sabendo o pulso do vento, mesmo apesar da turbulência, se aventuram na arte de bolinar. 

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