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Dois amores quase iguais

por amorlíquido, em 09.04.20

Pois é, quem me conhece sabe que a escrita e a poesia ocupam um lugar muito importante na minha vida, nos meus dias, e até mesmo naquilo que sou. Mas, existe um outro gosto (chamar-lhe-ia mesmo paixão) que caminha lado a lado com as palavras que sinto: a fotografia. Se me pedirem para escolher, qualquer resposta dada levar-me-á ao arrependimento imediato porque, na realidade, são duas metades que se complementam e que me completam. Vivem quase sobrepostas num amor que não percebe nada de equações e desconhece a dificuldade do dividir. 

Gosto de palavras que me transportam. Que na fluência do discurso me conduzem a algum lugar, certo que imaginado, porém quase inacreditavelmente real. Da mesma forma, sou apaixonada por fotografias que tudo dizem sem lhes ouvir a voz. Imagens cuja cor é a prosa e, a paisagem, a verdade a ser oferecida. Gosto tanto. Daquelas formas geométricas onde na simetria encontro uma história e, na desigualdade, a coragem da diferença. É um amor estranho. Vive fora do corpo quase tanto tempo como sobrevive em mim. Um triângulo ingrato, diria. Por mais que queira, sou apenas a amante de uma relação demasiado sólida para lhe conhecer o fim. Sinto-me mal. Peco de um lado, traio do outro. Na escrita de silhueta torneada e na voz rouca de timbre maduro da fotografia, sou pouco mais que uma espectadora. Assisto ao prazer da fusão, escrevendo-o. Mas por mais que tente saber como sentir, há amores que só desabrocham quando nos afastamos. E quanto mais sou (apenas) amante, mais os dois hemisférios se conciliam. Num mundo só. 

Deixo-vos, em baixo, algumas fotos da minha autoria. Espero que vos inspire tantas histórias quantas as que imaginei no momento de fotografar. Boa viagem!

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(Île de Nantes, Nantes, França)

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(Hofburg, Viena, Áustria)

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(Le Mont-Saint-Michel, Normandia, França)

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(Lagoa das Sete Cidades, São Miguel, Açores)

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(Basília de Santa Maria, Cracóvia, Polónia)

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(Praia de La Concha, San Sebástian, Espanha)

 

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Arbeit macht frei

por amorlíquido, em 08.04.20

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Do alemão que significa "o trabalho liberta", este é um texto onde, nas minhas palavras, abunda o silêncio de respeito por todos os que, em Auschwitz, perderam a vida, a libertação e, antes disso, a dignidade. 

Em 2019 tive o privilégio de visitar o Museu e Memorial Auschwitz, localizado em Oświęcim, um município polaco a pouco menos de sessenta e cinco quilómetros de Cracóvia. Fundado em 1947, abrange perto de 190 hectares de superfície, divididos em dois campos de concentração: o campo de Auschwitz I (20 ha) e o campo de Auschwitz II-Birnkenau (171 ha). Mais ou menos como a área que ocupariam duzentos campos de futebol.

Sabemos que os principais elementos da ideologia nazista eram o ódio à democracia, ao comunismo e aos judeus, sem esquecer a convicção da superioridade da nação alemã face às demais. Os campos de concentração foram criados pelo Terceiro Reich, a partir de 1933, nos quais eram aprisionadas todas as pessoas consideradas como indesejáveis e desprezíveis: adversários políticos do regime nazi, judeus, criminosos, homossexuais, testemunhas de Jeová. Não importava a idade, o sexo ou as convicções pessoais. Uma política racista e exterminadora onde as armas eram a fome, as execuções coletivas e o extermínio em massa nas câmaras de gás. 

Auschwitz foi o primeiro campo de concentração alemão nazi e tornou-se também o maior de todos os que foram criados. Durante a existência deste campo (de Junho de 1940 a Janeiro de 1945), foram deportados pelo menos 1,3 milhões de pessoas com distintas nacionalidades. Destes, 900 mil judeus foram assassinados imediatamente após a sua chegada ao campo. Estes recém chegados que eram considerados pelos médicos da SS como sendo inaptos para o trabalho, na sua maioria mulheres grávidas, crianças, pessoas doentes, deficientes e idosos, eram levados para as câmaras de gás, onde lhes diziam que teriam de se desinfetar e tomar banho antes de serem direcionados para o campo. As pessoas escolhidas eram despidas antes de entrar nas acomodações equipadas com chuveiros falsos e vestiários, de onde não regressavam. Dos restantes que vinham em cada transporte, eram levados para o campo, registados como prisioneiros, marcados com números e obrigados a trabalhar como escravos. 

O segundo campo, considerado como o maior centro de extermínio de judeus e o maior campo de concentração nazi para prisioneiros, com origem no portão de entrada por onde entravam os comboios com judeus deportados para o extermínio, cumpria também a função de principal posto de guarda SS. A partir desse primeiro grande plano, surge à direita uma fileira de barracões de madeira e, à esquerda, uma de barracões de tijolo. Todos envoltos por uma cerca de arame farpado com inúmeras torres de vigilância. Neste campo é possível ver as ruínas das câmaras de gás e crematórios, o monumento em memória de todas as vítimas que foi erguido em 1967, localizado a 800 metros da porta principal do campo e que fecha o caminho que, durante a guerra, conduzia os prisioneiros às câmaras de gás. Vê-se e visita-se também o prédio do banho principal do campo (designado por Sauna) ou o armazém que continha os bens roubados (Canadá). 

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O campo de Birkenau é composto por vários setores, onde homens e mulheres eram divididos, para além de ser composto por barracões de diferentes materiais. Os de tijolo destinados a 700 pessoas, onde eram colocados 60 beliches de três níveis e, em cada nível, deveriam dormir entre 6 a 7 pessoas. Nos barracões de madeira, destinados a 400 pessoas, não havia janelas. Os prisioneiros dormiam sobre colchões de palha e um mesmo cobertor era partilhado por vários indivíduos. 

O campo mais pequeno, Auschwitz I encontra-se dividido por vários blocos. Por exemplo, o bloco 5: "Provas dos Crimes" contém salas incontáveis com objetos pessoais que foram roubados aos judeus, pertences como óculos, próteses das pessoas com deficiências visíveis, malas, roupas de criança e sapatos infantis, panelas, escovas de dentes, pincéis de barbear. Todos esses objetos são reais e foram conservados. O bloco 7: "Condições de Moradia e Sanitárias", onde o visitante pode observar locais sanitários, quartos, dormitórios que estão dispostos de forma a transmitir a imagem de como era a realidade vivida no campo. 

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Se dentro dos blocos é a quietude do corpo que domina, engolindo em seco com o pensamento em revolta, no exterior, o cenário é igualmente aterrador. Desde a praça da formatura à forca coletiva, as próprias câmaras de gás e crematórios também eram visitáveis. 

Mas, e falo na primeira pessoa, as lágrimas não as pude mais conter quando, à porta do bloco 6: "A Vida do Prisioneiro", estava longe de imaginar o que iria encontrar. Aflige processar toda a informação lida sobre a história, sobre o desenrolar dos acontecimentos, o coração aperta-se quando te deparas com as toneladas de cabelo humano que era rapado para produzir tecidos de crina e feltro, e, minutos depois, à entrada de um corredor com término sem que lhe vejas o fim, toda a dor ganha um rosto. Dois, três, dezenas, centenas, milhares. Nas paredes de uma cor que deveria transmitir tranquilidade, gera-se uma antítese que não sabes descrever. A esperança de um lado, o sofrimento do outro, numa sobreposição quase unificada. Ouves, lá ao fundo, num aglomerado de sossego, uma voz que diz: "Todas as mulheres e todos os homens que aparecem nas fotos, morreram no campo."

Tu, permaneces ali, como se o mundo se afastasse de ti sem que abandonasses aquele lugar. A cada passo que dás, um outro alguém. Com identidade, com um nome, uma data e, sobretudo, uma expressão comum a quase todas aquelas molduras que pareciam forrar de negro a irónica serenidade: descrença, mágoa, tristeza, angústia, vulnerabilidade. Uma vontade roubada que deu origem ao desespero e à inevitabilidade do desistir. Conformismo, complacência. Subjugando-se à cobardia de quem se julga mais que o ninguém que sempre foi. E o sentido para a vida que sempre existiu, desaparece na poeira pisada pelos pés descalços numa escravatura sem retorno, onde o regresso é somente ao nada de onde todos surgimos. 

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Desumano, bárbaro, hediondo, imperdoável e incompreensível. Sinto o maior desapreço por tais atos e o mais sincero respeito por todos os que foram vítimas de quem nem alma nem coração teve. Cativos num regime totaltarista e ditatorial.

Pelos que morreram em vão. Pelos que sobreviveram à deriva, abraçados ao que tinham de melhor dentro si. Uma viagem de amadurecimento, a minha. E de tantos, na resiliência afogada pela injustiça cruel de quem nunca foi capaz de ver o mundo da cor que ele é. A cor da liberdade. 

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Dilemas morais #1

por amorlíquido, em 07.04.20

Sou fã de dilemas! Qualquer que seja a sua natureza. Éticos, morais, económicos, políticos. Desde que me façam pensar. Por isso, decidi criar uma coluna aqui no blog, onde todas as semanas irei partilhar um dilema diferente. A vocês cabe a responsabilidade de refletir sobre ele e, se quiserem, de responder de que forma agiriam.

Relembro que não há respostas certas nem erradas. Cada um, com base nos seus valores, crenças, princípios e filosofias, encontrará a solução que melhor coincidir com os mesmos. Que me dizem? Alinham?

O dilema desta semana, muito utilizado na psicologia, provém dos níveis de desenvolvimento moral propostos por Kohlberg, procurando, através das respostas obtidas, compreender a que estágio as pessoas pertencem (ou no qual se encontram no momento, uma vez não ser algo estanque).

Se quiserem ter mais informações sobre este dilema, nomeadamente uma descrição mais detalhada sobre cada um dos três nível e os respetivos estágios nos quais os primeiros se subdividem, deixo aqui o link para tal: Lawrence Kohlberg

 

O Dilema de Heinz (Kohlberg, 1984)

 "Numa cidade da Europa, uma mulher estava a morrer de cancro. Um medicamento descoberto recentemente por um farmacêutico dessa cidade podia salvar-lhe a vida. A descoberta desse medicamento tinha custado muito dinheiro ao farmacêutico, que agora pedia dez vezes mais por uma pequena porção desse remédio. Henrique (Heinz), o marido da mulher que estava a morrer, foi ter com as pessoas suas conhecidas para lhe emprestarem o dinheiro e, assim, poder comprar o medicamento. Apenas conseguiu juntar metade do dinheiro pedido pelo farmacêutico. Foi ter, então, com ele, contou-lhe que a sua mulher estava a morrer e pediu-lhe para lhe vender o medicamento mais barato. Em alternativa, pediu-lhe para o deixar levar o medicamento, pagando mais tarde a metade do dinheiro que ainda lhe faltava. O farmacêutico respondeu que não, que tinha descoberto o medicamento e que queria ganhar dinheiro com a sua descoberta. O Henrique, que tinha feito tudo ao seu alcance para comprar o medicamento, ficou desesperado e estava a pensar assaltar a farmácia e roubar o medicamento para a sua mulher."

 

1. Deve ou não Henrique assaltar a farmácia e roubar o medicamento? Porquê?

2. Se a pessoa que estivesse a morrer não fosse a mulher, mas um desconhecido, deveria ou não Henrique roubar o medicamento? Porquê?

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Um pouco menos sós ...

por amorlíquido, em 07.04.20

São muitos os posts que tenho lido sobre esta situação que estamos a atravessar. Uns mais esperançosos, outros inspiradores, havendo ainda aqueles que, a meia-luz, conseguem fazer refletir sobre tudo e sobre nada. E todos, mas todos mesmo, são incríveis. Não pela maior ou menor eloquência do discurso, senão pela sensibilidade das palavras escritas. Sabia que o ser humano era capaz de coisas geniais e, ao mesmo tempo, surpreende-me a sua forma inesperada de adaptação, resiliência e solidariedade. Não apenas com os outros, mas consigo também. 

Que a matéria é a mesma, já o sabíamos. Mas a maneira como cada um, na sua diferença, demonstra a capacidade para lidar com as adversidades, é notável. Aqueles que na fraqueza do mundo encontram a sua força pessoal, aqueles que a procuram nos que têm mais perto de si. Os que se isolam porque não sabem gerir, afastamento esse que é, ele próprio, um meio de gestão das emoções, ansiedades, medos e interrogações.

Não há certo nem errado, forte nem fraco. Há os que agora, e como nunca, descobrem um sentido para a vida porque a pausa do tempo lhes permitiu ter tempo para do tempo desfrutar. E aqueles que no remoinho, preferem entregar-se à coragem do vento, sem voltar a olhar para trás. 

Desde sempre que sou apaixonada pelo ser humano, pelas pessoas e até nos atos mais macabros costumo encontrar o fascínio pelo modo como os distúrbios afetam as intenções. Por isso mesmo, seria um gosto saber de vós. Gostava que me contassem sobre como estão a viver esta fase, o que já vos passou pela cabeça, e qual aquele pensamento que vos acompanha todos os dias. Que partilhassem a vossa experiência, vivência, as vossas dúvidas e anseios, e o que têm feito para os ultrapassar. Poderão fazê-lo nos comentários, se assim o entenderem. Caso contrário, e se preferirem resguardar-se da exposição, poderão fazê-lo de uma forma mais privada através do email associado ao blog. Em ambos os casos irei ler-vos com a devida atenção e responder-vos individualmente com a calma que merecem.

Talvez nos consigamos apoiar reciprocamente e, dessa forma, sentirmo-nos um pouco menos sós.

Nunca deixem de ser felizes!

 

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Ramalho Eanes: "Nós, os velhos..."

por amorlíquido, em 02.04.20

Na entrevista que Fátima Campos Ferreira conduziu ao antigo Presidente da República, António Ramalho Eanes, emitida pela RTP na noite desta quarta-feira, 1 de Abril de 2020, os espetadores assistiram a trinta minutos de um desenrolar de uma mensagem que vale a pena relembrar e reforçar.
Do alto dos seus oitenta e cinco anos vividos, sapientes e cavalheirescos, o primeiro presidente eleito após a revolução do 25 de Abril, demonstrou a sua sensibilidade e inteligência nas palavras que proferiu, deixando claro que é, quase sempre, na humildade da essência onde se encontram os Grandes seres humanos deste universo.
O diálogo que se foi criando não nos deixou certamente surpresos pela sua razoabilidade, contudo o sentimento que inflamou as sucessivas afirmações foram de uma dignidade imensurável.
Sim, já sabemos que vivemos uma situação excecional, seja ela social, política, económica ou humanitária. Também nos apercebemos que as sociedades foram abaladas por uma catástrofe que ninguém sentiu chegar. Como tantos referiram, um tsunami que a todos nos conseguiu molhar. Aqueles que, sem saber, brincavam na areia quando viram o chão estremecer. Aqueles que correm, todos os dias, para que os que estão na praia e não conseguem voltar, possam, em algum momento, a casa regressar. Todos os que se abrigaram a tempo e, hoje, vêem a ondulação da tempestade, lá ao longe, mas, mesmo assim, teimam tantas vezes em abandonar essa certeza de conforto.
Num século de intensa globalização, e com algumas exceções culturais, abrimos mão do "vamos juntos" para abraçar o "cada um por si". Trocou-se a solidariedade pelo egoísmo, a cooperação pelo individualismo e, do altruísmo nasceu a competição. A ironia de uma suposta união onde a Europa desvenda, mais que nunca, como os interesses individuais se sobrepõem às necessidades coletivas. Países que olham para o seu umbigo, deixando parceiros à beira da inundação. Comunidades de escassos recursos que se chegam à frente, colocando de lado as diferenças, as desavenças e mostrando que aprenderam a lição do: "a seguir podemos ser nós". 
Percebemos como toda a vida nos incutiram a importância da socialização e do fazer das relações uma constante evolução. E agora, sem que o pudéssemos esperar, isso é tudo quanto não podemos procurar. O cheiro, o toque, o abraço. Damos conta da relevância das redes para que nos sintamos menos sós. Pergunto-me? E sem a internet? Quantos de nós saberiam conviver com o que são? Quantos colocariam em retrospetiva todas as suas ações, analisando o porquê das intenções?
Sabem, somos nada. Eu, tu, os nossos. O muito que somos uns para os outros, desvanece aquando do confronto com estas crises. Uns relembram o quão pouco sabem, outros acordam para o tudo que nunca chegaram a ser. Fragilidade, vulnerabilidade. Indefeso, desamparado, desprotegido. É esse o tamanho da nossa pequenez. Tanto estudo, tanto debate, tanta investigação e, à data de hoje, existem 950.652 casos confirmados, dos quais perto de 50.000 resultaram em vítimas fatais. 
No meio da alvorada, há quem faça uso do poder que tem para descredibilizar as recomendações da OMS, para incentivar as pessoas a ir para a rua, a irem trabalhar normalmente. Há quem procure dar uma métrica a um razoável número de falecidos e, caso as contagens findem por defeito desse patamar, então uma das maiores potências mundiais deste mundo terá feito um "bom trabalho". Discursos repugnantes e populistas que atraem os que não foram ensinados a ter pensamento crítico e que convencem todos os que aprenderam a tragédia de se conformar. 
Mas sabem que mais? E regressando ao nosso país, e para os que se lamentam de sermos um povo pequenino, Portugal tem dado a conhecer a cor da sua garra. Com países latinos como Espanha e Itália com sistemas à beira do colapso, em que durante semanas o acréscimo de infetados era abismal, sem término à vista, Portugal tem conseguindo retardar a ocorrência do pico da epidemia, que é como quem diz, fazer com que o SNS não se defronte com a rutura. Que consiga detetar os casos ao mesmo tempo que tem a capacidade de resposta necessária e suficiente para ajudar e tratar aqueles que são alvo de maior preocupação.

Várias empresas e investigadores nacionais procuram formas de fabricar e produzir testes, máscaras e ventiladores. Tudo para ontem! Se antes faziam impressões 3D ou peças para automóveis, agora o foco é na produção de viseiras. Se antes produziam têxteis ou cervejas, agora fazem gel desinfetante. As organizações adaptam-se, reinventam-se, organizam-se em prol de um único objetivo: ganhar a guerra. Arrepia-me a espinha quando ouço que não somos bons, que lá fora há melhor. Caramba! Olhemos para o mundo, olhemos para nós e demos conta das diferenças, de como temos vindo a ser elogiados pelas medidas introduzidas e pelo cumprimento das recomendações apresentadas. No pouco espaço a que pertencemos neste mundo, nos milímetros que ocupamos na natureza, somos tanto!

Respeitem e fiquem em casa. De nada serve aplaudir os profissionais de saúde à janela ou cantar o hino a plenos pulmões, se saem de casa tão depressa como os raios de sol atravessam nuvens inexperientes. Aprendam novas formas de convívio, diversão, comunicação. Reflitam sobre o que estamos a viver, pensem no dia de ontem e em tudo o que fizeram, foquem-se no futuro e naquilo que não querem mais deixar por fazer. Reconheçam a importância dos vossos, de como eles estão no início, no durante e no fim. Como aquilo que vos faz ser alguém não se deve ao que têm, senão às pessoas que são de vocês. Tenham a certeza de que o amanhã será irregular e que exigirá dedicação de todos para voltar a aplanar o terreno. Estejam seguros de que serão tempos duros, mas que os obstáculos se ultrapassam um de cada vez. 
Respeitem-se e respeitem os outros. Respeitem quem é dos outros tal como esperam que eles respeitem que é de vós. Só unidos podemos travar o comprimento das ondas. Protejam os mais velhos. Principalmente porque se eles vierem a ficar entre a vida e a morte, serão os primeiros a ir embora. Porque entre os jovens e os velhos, ficam aqueles que ainda têm mais anos pela frente. É uma questão que pode levantar algumas interrogações éticas (eu própria poderia questionar a justiça dessa decisão com uma dezena de exemplos), mas é o critério de escolha, se a necessidade de ela surgir. E só depende de nós, de cada um de nós, impedir o seu aparecimento. 

Que na visão periférica incluamos os desconhecidos e que eles o façam com quem nos ama a nós. A nossa vida depende disso. A da tua mãe asmática, a do teu avô diabético, a do sobrinho da tua amiga que tem uma doença autoimune. A dos que são gente e que pela gente que são, não importa a idade, merecem viver. 
E lembra-te, 10 mortos em 10.000 pode parecer pouco. Mas e se esses 10 forem?

- a tua mãe, Cristina

- o teu pai, António

- o marido, Gonçalo

- os avós, Marília, Gustavo, Luísa e José

- a tua irmã Carlota e os teus irmãos, João e André

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"Nós — e eu falo porque sou um velho, tenho 85 anos… nós, os velhos, devemos pensar que a nossa situação é igual à das outros. E se alguma coisa há, é a obrigação suplementar de dizer aos outros que isto já aconteceu, que se ultrapassou, que [esta crise] vai ser ultrapassada”, começou por dizer, reforçando depois o apelo: “Nós, os velhos, vamos ser os primeiros a dar o exemplo. Não saímos de casa, recorremos sistematicamente aos cuidados que nos são indicados e mais, quando chegarmos ao hospital, se for necessário oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos”.

 

E se não souberes nadar, faz do casco a tua esperança e da vela a nossa fé.

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O dia mais mentiroso do ano

por amorlíquido, em 01.04.20

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(Quem nunca? Acusem-se! E hoje, tal como em todos os outros dias, sejam sempre sinceros e verdadeiros)

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