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Dia Mundial da Poesia, 2020

por amorlíquido, em 21.03.20

Há quem cale a solidão com um beijo

e quem nele desfaça o silêncio.

Fundem-se os segundos num único tempo

e o olhar perde-se num de dois caminhos. 

Alonga-se na curva de um sentido apenas

ou escurece em lágrimas de pólvoro transparente

                                 ...que derretem num murmúrio de desespero

                                 ...que implodem numa bala que mata só por dentro

onde o corpo (nosso) estremece

e uma alma (outra) permanece

abraçada no vazio. 

 

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Pensamentos diários #1

por amorlíquido, em 20.03.20

Que um dia, quando não soubermos mais o que dizer,

baste o ruído do olhar para nos amarmos em silêncio

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Sobre Envelhecer

por amorlíquido, em 20.03.20

 

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(Autor desconhecido)

 

Começo por vos questionar sobre a seguinte reflexão:

Envelhecemos enquanto sinónimo de um número enclausurado ou é na chegada ao limiar do desconhecido que nos apercebemos do verdadeiro significado da existência?

Há quem diga que a velhice não é mais do que um período (ingrato) de preparação para a inevitável certeza da qual nenhum de nós pode ousar fugir. Há quem diga que é uma contagem (cada vez mais) decrescente, onde o palpitar do coração se torna mais suave, espaçado, em previsão da continuidade cuja linha não voltará a ser irregular. 

Dói-me a alma quando sei dos idosos abandonados, pela prepotência de quem os julga (agora) desprezíveis. Dos maltratados pelos que os sentem um fardo que não pretendem suportar. Daqueles que os ludibriam, encontrando poder na sua ingenuidade. E pergunto-me:

Existiria a mesma coragem nos atos se os alvos atraiçoados fossem de vigor físico dificilmente abalroado?

Na ausência de resposta, não porque não me debata sobre ela, senão porque prefiro que cada um a encontre em si mesmo, atrevo-me somente a pensar o seguinte:

Os velhos de agora foram os pais de energia incansável que, não num passado muito distante, corriam atrás dos seus filhos inquietos pelo jardim. Os velhos que, como os jovens de hoje, também se apaixonaram, encontrando sentido no toque e paixão no abraço. Os velhos cuja insipiência de domínio virtual e tecnológico não significa total obscurantismo ou iliteracia. Não.

O problema está mais na insensibilidade dos que vêem a sua fragilidade como transtorno, do que na vulnerabilidade que o tempo lhes impôs. Está na dificuldade em perceber as vivências distintas e em trocar a falta de paciência pelo interesse sincero da aprendizagem. Do que foi e não regressa, nem que isso seja necessariamente pior. O problema está na frieza com que, quero acreditar que poucos, tratam de igual modo os trapos que já não servem, rasgam os papéis que expiraram a relevância, (des)fazem "amigos" que nos desiludiram nas redes sociais.

Podemos emocionar-nos com a incompreensão do tempo e a rapidez com que o mesmo fez da sua inércia, curvas tristes de um mapa, tantas vezes, irreconhecível. Cansado, sofrido, amedrontado. Podemos assustar-nos com a passividade na aceitação do não devolvível e, talvez, mas só talvez, reconhecermos o nosso caminho na mesma direção. Termos medo de que o espelho faça de nós dúvidas deambulantes, onde o amor pela essência não pode senão ser pelas conquistas que o quotidiano tatuou e, nelas, a sabedoria nasceu.

Talvez, mas só talvez, nesse instante, e com sapatos que (ainda) não nos pertencem, possamos saber a cor da indiferença. Que assim não seja. E que para quem o for, que a gravidade do que os ombros suportam sirva de manto caloroso até o corpo se deixar, simplesmente, adormecer. 

 

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Em tempos de pandemia...

por amorlíquido, em 16.03.20

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...sinto o meu país exausto, inseguro, maduro na compressão da necessidade de agir, porém ingénuo na certeza das decisões tomadas. 

À janela, onde antes me demorava a ver as filas de carros que se formavam em hora de ponta, conto agora, e pelos dedos de uma mão apenas, aqueles que (ainda) se deslocam. Para um lugar deserto. Outros, num sentido em vão.
Um povo que tardou em aperceber-se da gravidade da situação, que procurou teimar com o que ditava o bom senso e a responsabilidade, está, no presente e acredito que em grande parte, a viver um momento extraordinário. Das suas vidas. Da História do mundo como até então o conhecíamos.
Desafiam-se os limites da vivência afastada da liberdade. Entre paredes cuja cor nem nunca tínhamos prestado grande atenção. Em convivência contínua com quem antes, talvez, só víamos poucas horas por dia e, na tentativa de evitar o desespero, damos por nós à procura de novas formas de respiração. 
Estes são os que se recolheram com a intenção de impedir o avanço da tempestade. Soldados sem escudo nem espada, mas que, indiretamente, se reinventam num luta sem término à vista. 

Há os que, por dever todavia não suspenso, caminham num campo minado para assegurar que os em isolamento não conheçam a insuficiência, a necessidade urgente ou a fome. Os que na rua garantem a segurança dos que circulam. Os que, expostos indevidamente, suportam o peso inteiro de um colapso económico iminente. 
E há os que se encontram no centro da batalha, no epicentro da agitação. Alguns, os escudos perderam. Outros, as espadas perder-se-ão no chão. Um tempo ingrato de guerra com o invisível, o traiçoeiro e desconhecido. De mãos dadas com o perigo para que a ninguém o sangue seja derramado completamente. 

A curva dos sorrisos conhece a expressão do medo. Os dias que se alongam surgem cada vez mais curtos. Numa corrida contra o tempo, onde a esperança substitui as previsões e o egoísmo permanente dá tréguas a uma partilha comum, ao querer coletivo. É nestes momentos em que me apercebo da pequenez que nos define, da fragilidade que nos sustenta e de como o tempo que julgamos dominar, por entre o horizonte circula de fininho, sem olhar para trás. 
Que a quarentena traga consigo alguns ensinamentos ou, pelo menos, reflexões a ponderar. Que a falta de tempo do quotidiano para gestos simples de cortesia, amor ou consideração sejam concretizados antes que a dúvida da indisponibilidade se intrometa. Que saibamos olhar para o outro, querendo cuidar como cuidaríamos dos nossos (e de nós mesmos). Que troquemos a arrogância pelo altruísmo, a frieza pela generosidade. Que saibamos dar valor ao livro guardado na estante, ao beijo do nosso filho, às refeições em família. Que reconheçamos a importância dos afetos entre a azáfama do frequentemente, que consigamos compreender a relevância da existência de quem nos defenda, incondicionalmente, e de forma acessível a todos. 

Mas, e sobretudo, que nunca esqueçamos as oportunidades que nascem das guerras mais sofridas. Com novas ideias, com atitudes mais corajosas, com conhecimento mais validado. Que saiamos mais solidários, empáticos, mais responsáveis e conscientes. Que retiremos alguma lição, nem que seja do tempo que tivemos para nos conhecermos melhor enquanto a essência que, todos os dias, dentro de nós levamos. 

Sei que venceremos. E que da tormenta regressarão os abraços sinceros do antigamente. 

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O porquê deste blog

por amorlíquido, em 15.03.20

A tod@s @s que se encontram desse lado, sejam bem-vind@s! Este é o meu primeiro post no mundo dos blogs. O primeiro passo, o primeiro choro, a primeira palavra. A partir do qual espero poder crescer.

Sou amante do papel, mas troco agora o som do carvão a fundir-se numa página em branco, pelo dedilhar em teclas que aqueço debaixo das minhas mãos. Não sei em que direção nem com que propósito, contudo sei que escreverei (sempre) com sinceridade. Sobre o dia agitado, sobre a semelhança entre as ondas do mar e a vida cuja efemeridade teimamos fingir (des)conhecer. Talvez uma reflexão apenas ou um apelo desprotegido. 

Há muito que pensava embarcar nesta viagem e as minhas reticências sempre me fizeram recuar. Sem um tema único e desprovida de qualquer intenção, deixo, neste instante, o cais. E que quando o sol adormecer, a luz nunca me deixe à deriva na imensidão de um grande amor. Sobre tudo. Líquido. 

 

 

 

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