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112: Qual a sua emergência?

O medo do amanhã

por amorlíquido, em 21.03.20

O drama do tempo presente está na indisponibilidade para aguardar o amanhã.

Século XXI. A era digital, da tecnologia e das "fake news". Num mundo onde se esgotou a capacidade da espera. 

Olho, hoje, para as gerações mais recentes e assusta-me o caminho que, inconscientemente, alguns arriscam escolher seguir. São elas o futuro da informação, da ciência, da política, economia e antes de tudo, as responsáveis por trazer gerações sem letra ainda atribuída. À semelhança do que acredito ser um dos pilares fundamentais da construção de qualquer ser social - a educação - temo saber que os valores, futuramente transmitidos, possam ser alheios à essência que considero que, talvez só no fundo, nos pertence. Não porque assim lhes tenha sido incutido pelos seus pais ou familiares, senão pela facilidade de acesso que a (quase) tudo têm. Pela inversão das prioridades e pela descrença na relevância das coisas mais banais da vida. 
As páginas dos livros foram trocadas pela luz azul dos ecrãs, à distância de um dedo sem que, no entanto, os possamos folhear. Os grupos do whatsapp têm mais gente do que os aglomerados que vejo conviver no jardim. Preferimos as mensagens ao olhar nos olhos e, pergunto-me o porquê. 

As pessoas descartam-se com um simples gesto para a esquerda, porque a fotografia pouco ou nada nos diz. Porque, passem os anos que passarem, os traços dos rosto sempre rugirão mais alto que o torneado da personalidade, com os seus defeitos e segredos escondidos. Porquê? Pergunto-me. Talvez porque a nossa perceção é instantânea e a nossa racionalidade tem preguiça. Quem sabe, porque os nossos padrões começam por fora e terminam no interior, sem um esforço de inverter essa ordem. 

Quer-se o casual, o que não exige compromisso. Porque dá trabalho, porque requer compreensão, atenção. Porque é necessária paciência e aceitação. Porque o tempo tem de estar lá, e tempo não o temos. Estamos ocupados em conhecer os "influencers" do Instagram, em decorar as tendências do que dá "likes". E.....

queremos ser notados mais do que queremos ser vistos. 

Vivemos tudo como se fosse para ontem. Sem a calma para respirar, para abraçarmos quem existe dentro de nós. Somos cada vez mais inseguros, mais ansiosos. Receamos o confronto com a insuficiência, enquanto desprezamos quem nos parece "pouco". Porque nos baseamos, talvez, no "ter" mais do que no "ser", e antes que a essência do que vive no prolongamento das margens do que somos, fugimos quando encontramos ausência daquilo que procuramos existir confinado aos limites de um corpo apenas. 

Não há tempo para a espera, senão a sede da emergência. Queremos, queremos tudo e queremos já. As pausas para o pensamento desvaneceram antes que a reflexão se formasse. E deixámos que o tradutor do que sentimos estivesse nas mãos de quem nem nos conhece. Acreditamos em tudo o que nos dizem e a capacidade crítica para questionar a incerteza voou no instante em que nos julgámos moldáveis por um mundo no qual são poucos os que já descobriram que não querem demorar-se. 

E a ironia desta somente sobrevivência é a de que nos sentimos cada vez mais sós, embora nos sobrem os amigos e não nos faltem seguidores. O espelho que existe em nós deveria fazer-nos ponderar a fiabilidade do que nos rodeia, muito antes de que nos deixemos abater pela cegueira de quem nos diz ver. 

Mas lembrem-se...

Num mundo avesso, será visionário quem se mostrar como um todo, no tudo que outros teimam em esconder.

 

 

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