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A Noiva do Vento

por amorlíquido, em 15.04.21

Se o sorriso quase nunca oferece 

e há um abraço que nem sempre vem,

quem sabe amor

esse amar não tem.

w

(A Noiva do Vento, de Oskar Kokoschka)

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Teatro das Ostentações

por amorlíquido, em 14.04.21

O espelho onde tanto procuramos as respostas que a sociedade nos impõe é um lugar confuso cuja concavidade deforma o que, sem saber, existe dentro de nós.

Esse universo obtuso no qual nos deixamos levar não é amigo de ninguém. Somos iludidos no que alguém decidiu ser moda, ser beleza ou indicador de sucesso. Sinais quase sempre superficiais de construtos cuja definição é demasiado subjetiva para que possam ser encarnados na organicidade do que somos. Não obstante, acreditamos. No que vende mais, no que nos dizem ser melhor, no que outros exibem como se de montras ambulantes se tratassem. Gente que se tornou interessante sem conhecermos e a quem damos a nossa atenção embora permaneçam desconhecidos.

Vamos atrás do que não sabemos que não precisamos, do que fingimos que queremos para exibir a quem se cruzar connosco daí em diante. Quanto mais adereçamos o limite da nossa essência, maior é o vazio que nos ocupa. O vácuo da alma transcende o espaço dos órgãos, o sangue lentifica-se numa viagem na qual se perde o significado da direção.

Tempo a gente não compra e amor próprio também não. Vem do negro das profundezas onde, até nós, nos recusamos explorar. Temos receio de quê? De lá ficar?

Dói entender a verdade do que temos, principalmente quando ela diverge do que compramos sendo irrefutável. Mas não é.

Quando a pele respira das máscaras que a sufocam diariamente, resta a nudez cujo confronto nos atormenta. Porém, ela permanece. Carente de compreensão. De que o espelho onde se reflete a imagem do que queremos ser, esteja embaciado de variáveis que não nos pertencem. E, sobretudo, de que o reflexo mais verdadeiro seja o da convexidade que habita no espaço do corpo, o lar da beleza sincera que tanta graça perde no teatro das ostentações. 

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Ciclos Sem Fim

por amorlíquido, em 13.04.21

Um ciclo. Tudo o que presente de um outrora passado nos tira, o futuro da mesma vida voltará a dar.
Não importa a matemática dos dias que passem, dos minutos que tenhamos de contar. Esse momento chegará, acreditas?
Por muito invernoso que o horizonte te pareça, por muito escorregadio que o passadiço te esfrie os pés molhados pela chuva. Por muito que o vento te desafie o equilíbrio e a insegurança te grite “é melhor parar”. Não, nisso não acredites! Ela quer que desistas. Que te escondas e que não insistas. Quer que te resguardes na sombra de um possivelmente que, para ti, nunca será realidade.
Por isso, acredita. Mas acredita com a mesma garra com que desvias os arbustos caídos pelo chão, com a mesma vontade das lágrimas que te aquecem o rosto. Acredita e aceita quem te queira dar a mão.
Por muito que o destino te pareça distante. Por muito que a escuridão te sussurre ao ouvido. Por muito que a morte te desafie a coragem do querer permanecer. Por tudo, lembra-te: mais que o medo da morte é o receio de estar vivo, de não saber qual o caminho, percurso esse que vais atravessar, seja a correr ou devagar, vais porque estás vivo.
Esse não saber explicar que te inflama os olhos nos momentos de desespero é o mesmo que te incha as veias na altura de arriscar.
De pensar, sentir, aprender e continuar. Porque o destino não está onde chegaremos. Não está na linha longínqua que ainda não vemos. O destino está em cada passo dado, em cada direção que escolhes, em cada palavra que dizes, nos lugares onde decides ficar.
O destino és tu. Serás sempre tu a vesti-lo e nunca ele a cobrir-te a ti. Despe essa ideia, sopra esse pensamento, e num somente intento, fecha os olhos e abre-os novamente. Fecha e volta a abrir. Nada mudou, certo?
O dilúvio permanece zangado com o mundo, o frio às avessas com o conforto de um chocolate quente.
Agora experimenta olhar para longe.
Isso.
Não, um pouco mais longe.
Aí, está perfeito.
Inspira e começa a andar. Lentamente. Mais.
Calma, devagar.
Assim.
Continua.
Ok, pára. 
Fecha os olhos. Cerra com toda a tua força. Inspira. Expira. Enche o peito de ar. Agora quero que olhes para a frente. O longe ficou perto?
Não, pois não? Continua longe, eu sei. E estás cansado. Mas não exasperes. Respira. Fecha os olhos. Aperta as mãos com força, abre os olhos devagarinho e olha para trás. Olha para de onde partiste e vê onde estás!
É essa a tua viagem. A de agora, a do passado e a do futuro também. O destino leva-lo contigo. A vida coloca-te as encruzilhadas e, o mundo, a ideia de que mais vale não prosseguir.
Mas acredita, tudo o que tu queres está em ti. E quando avanças, a ideia de que não és nada foge num sopro de revolta, da mesma maneira que a vida ganha respeito por ti. Porque tu o mereces. Por cada queda, por cada vazio, por cada entrega, a vida não te nega uma nova oportunidade. É verdade! Acredita.
E faz disto uma lembrança para que te sirva, algum dia, de saudade.

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Pronúncias do Norte

por amorlíquido, em 09.04.21

Há estrelas com pronúncia do norte

que mergulham nos livros da vida

entre sorrisos, noite e dia

sem esperar que lhes chegue a sorte.

 

São luzes que incendeiam 

olhares em fuga do sol

que dão pão a corações-sem-abrigo, 

os que caem no perigo

de querer ser céu em tom de morte. 

 

Esperanças que choram no escuro

ao lado dos que penumbra são

são futuros que amam gente sem poesia, 

que entre sorrisos noite e dia

consomem corpos com sede de alívio

às escondidas dos abraços à inspiração.

 

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O Melhor de Nós

por amorlíquido, em 08.04.21

A lua, já altiva, marcava as vinte horas daquela quarta-feira fria e repleta de neve.

No segundo andar, no primeiro quarto à esquerda do corredor mais comprido da casa, ali estava ela, sentada sobre a cama, penteando os caracóis que a humidade havia devolvido aos seus cabelos. 

- Por que razão choras? perguntou ela ao espelho onde se tentava ver com alguma nitidez.

- Porque te sinto triste. Sei que o estás e, quando assim é, fico triste também. Como detesto quando o meu corpo perde a transparência das verdades. 

- Que verdades? interrogou-o.

- As de quem me olha. As tuas. As de quem parar diante de mim. 

- E o que te dizem essas verdades? questionou-se.

- Que as pessoas pouco se gostam. Olham-se, mas não se vêem a elas próprias. Entendem-se de jeito embaciado, e quando é pelas ruas que passeiam, mentem a meio mundo porque não se conhecem no seu mundo inteiro. 

- Mas eu conheço-me e gosto muito de mim, insistiu ela.

- Gostas mesmo? Ou gostas da versão que crias para outros gostarem de ti? Esse rapaz por quem te escapas pela janela quando o sol se despede, matreiro ao longe, gostas dele?

- Gosto, respondeu.

- E ele gosta de ti? 

- Sim.

- Não. A resposta é não. Já viste a forma como ele te trata? Só te procura quando se sente só. Só te deseja quando mais ninguém o quer. Tantas vezes que vos vi neste quarto, alheios de tudo o resto, mas sem presentes estarem. Cada um no seu telemóvel, nas suas vidas, nos seus círculos. Amar é desligar o tempo e as horas que não queremos que passem. Amar é olho no olho até ao esgar do sorriso mais cúmplice. 

- Eu sinto que ele gosta de mim, devolveu ela. 

- Tu queres acreditar que ele gosta de ti. E isso é totalmente diferente. Queres que ele complete o vazio, a insegurança, a dificuldade de aceitação. 

(A sua expressão do rosto aquiesceu)

- O amor não tem segredos, mas aventura. Tem asas e não costas voltadas. E mais importante que esse amor que há de chegar, estou certo, está o amor que sentes por ti. 

- Eu tenho esse amor, disse ela em tom baixinho.

- Não tens. Enquanto não conseguires ver todos os teus contornos em mim, não terás. Enquanto sentires dúvidas do que mereces, o teu rosto continuará difuso. Continuarás chorando, e o meu corpo seguirá sendo o depois da tua chuva. Vamos fazer um exercício, hoje vais dormir sobre o assunto e amanhã de manhã, quando despertares, vais ler-me 3 coisas que gostas em ti e 3 que não gostas. E depois de amanhã, 4 coisas que gostas e 4 que não. E depois 5, 6, 7... até não saberes mais o que escrever em cada um. 

- Está bem, consentiu. E quando não tiver mais nada para escrever?

- A neve derreterá, os teus cachos voltarão a brilhar sob o calor da estação seguinte. 

- E tu? acrescentou.

- Eu voltarei a ser tu. Voltarei a ser verdade. Sem humidade, mas com humildade. E o que a incerteza turvou e a mentira alastrou, a primavera fará desvanecer. 

(Descalçando as pantufas quentinhas, ela preparava-se para se deitar, quando...)

- Espera. Não apagues a luz. 

- O que foi?

- Quando a lua for embora de sussurro, cala esse amor já cego, surdo e mudo, e constrói-te como abrigo. Que não há amores pôr-do-sol para quem vai amando que nem mendigo.

(Os olhos fecharam e na esperança adormeceu)

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Gostos e Gostares

por amorlíquido, em 07.04.21

Há gostos e gostares. Há quem goste sem lhe conhecer o gosto. Há quem goste tanto como o sorriso que vive a sulcar a pele, e há gente de gostar tão pouco que, nelas, nenhum riso tem lugar.
Há gostos e gostares. Há quem diga amar quem finge saber o que é amor, porque há quem goste somente de gostar. Há gostos que sabor não têm e há quem goste mesmo sem provar.
Há gostos e gostares. Pessoas que gostam sem se gostar.
Há gostos e gostares. Pessoas que se gostam ainda que os seus gostos não se gostem.
Mas, repito, há gostos e gostares. O meu gosto é o de gostar de gostar de alguém, mesmo com o que houver para não gostar.

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