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Faz o que eu digo, mas ...

por amorlíquido, em 22.09.20

Utilize a força com que veste os outros do seu preconceito 

para se despir da sua não-verdade 

e lembre-se

de nada vale julgar quem tem os botões descosidos 

quando tantas vezes andamos com os atacadores desapertados.

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All you need is love

por amorlíquido, em 19.09.20

Dois séculos num século apenas. O antes e o depois de um tempo interrompido. Para nós, gente que sente, sem que nenhuma pausa se impusesse no todo que julgamos nosso, tão finito quanto imperfeito.

Duas metades de uma só história ainda presente. Antes e depois de uma guerra na qual todos somos guerreiros, contra um inimigo que não se vê.

Um hiato na celeridade que incutíamos aos nossos dias, sem abrandar o ritmo frenético de uma mente e corpo cansados, com medo de que qualquer atraso colocasse em dúvida o sentido desta existência. Nesse fosso entre terra pouco firme e a certeza da constância de um abismo, à ausência do outro trocámo-la pela ponte com a lua cheia. À noite outrora indiferente pelo receio de fragilidades desmascaradas, fizemos do sol o holofote do palco onde sempre nos movemos, recusando a frieza e insegurança de que qualquer soldado também sempre fará parte.

Até que o mundo parou sem que a materialidade que tentamos atribuir ao tempo ficasse suspensa num grito mudo sobre a impossibilidade de um “amanhã logo se vê”. E enquanto esta orgânica sobranceria se prolongou entre paredes repetidamente confidentes, as taquicardias de uma natureza doente conheceram o embrandecer da cadência essa que, não pertencendo, nos mantém vivos. Sóbrios, porém distantes. De proteger o que nos dá chão.

A distância. Uma dimensão entre dois polos que divergem do vazio que o caminho cria, em direções opostas, mesmo que o espaço do estar permaneça constante. O presumidamente insubstituível viu-se em monólogos com lugares até então desconhecidos, e o pouco valor ao alimento da alma, tantas vezes despido e abandonado, matou-nos a fome durante meses.

Desta segunda metade sobra-nos a prepotência disfarçada de ignorância, a consciência de que as diferenças de classe mantêm à tona a igualdade que nenhuma fortuna será capaz de diferenciar. Resta-nos a certeza de que o conhecimento nos aproxima da verdade, que há informação que nos oferece rasteiras à tentativa do seu encontro. Ficamos com a convicção do pouco que ocupamos para o tanto que continua a ser preocupação, e do muito que somos para os nossos de coração. Façam-se disrupções silenciosas ou torne-se sangue o descontentamento que dentro nos afervora. Guardamos, sim, a crença de que embora o amor nos embriague e tantas vezes nos despiste em aventuras “para lado nenhum”, será sempre o antídoto da angústia alheia e a vacina contra a vontade, por vezes própria, do finalmente deixar de ser.

 

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Isto é um até já

por amorlíquido, em 06.07.20

Quatro meses e muita partilha depois, este blog encerra o seu primeiro capítulo. Não sei se voltará a abrir outro, se a história chegará ao fim ou se ficará muito para contar, mas a verdade é que a pausa é urgente. Já há algum tempo que me sussurrava e, agora, tenho mesmo de ceder. 

Não queria ir embora sem agradecer o carinho que fui recebendo de tantos de vós. A sinceridade, a verdade, a nudez da alma, o intercâmbio de ideias numa troca de inspirações que foi, diria eu, contínua.

Tive imenso gosto em embarcar nesta experiência! De entrar nas vossas casas sem pedir licença, bisbilhotar nos pensamentos, nos desabafos, nas sugestões e bom humor constante. Conheci formas de pensar diferentes das minhas, tive o privilégio de perceber a tremenda sensibilidade de muitos dos que aqui abrem os seus corações. Identifiquei-me, chorei muito e ri bastante. Uma coleção de emoções indescritível que, em alguns momentos, se tornou um vício e, noutros, o rastilho de uma chama que eu, nem sempre, queria criar. 

Não há muito mais a dizer. Talvez nos voltemos a cruzar numa outra carruagem.

Até lá, protejam-se e, acima de tudo, sejam felizes! 

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Se um sorriso pode incomodar muita gente ...

por amorlíquido, em 03.07.20

Sorri. Para perceberes aqueles que se afastam, pela inveja que não controlam e pelo mal que, mesmo dormidos, tentam oferecer. 

Sorri nas palavras que cantas baixinho. Sorri nos amores que guardas contigo. Os que o mundo conheceu e todos os que ninguém sabe que foram vividos. 

Sorri às histórias que passaram e aquelas que, hoje, ainda são de ti. 

Sorri esperança na rua que atravessas. Sorri aceitação pelas lembranças que mais detestas. 

Sorri em silêncio. Ao espelho que te pertence e ao reflexo que deambula entre nós.

E mesmo que com medo, não deixes de sorrir. Sorri com o brilho no olhar e com o cabelo de norte perdido.

Sorri com a pele arrepiada, com a alma despenteada. Sorri mesmo que de coração sentido.

Sorri descaradamente. Com a voz intrometida ou engolindo em seco. Mas sorri. 

Pelo retorno da vontade que ele te aguça. 

Pela escolha que ele te ensina a fazer. 

Pelos maldosos que aparta e os verdadeiros que decide acolher.

Sorri entre beijos apressados. Sorri sem pressa no abraço de quem mais te quer. 

Caramba, vai sorrindo!

Sorrisos inteiros. Passageiros da tua viagem.

Sorri contra o tempo e à medida que o tempo passa. 

Sorri na antítese do que o teu corpo precisa.

Sorri como eufemismo da retilineidade que sentes chegar. 

Sorri de nome próprio. No princípio, no meio e no fim.

Não é ironia. Acredita. 

É preferir, descobrir, aprender e tentar. É rir o dobro do que queres chorar. 

E que o começo de cada dia se paralise na anáfora do sorrir. 

Lembra-te que se um sorriso incomoda muita gente

a sua ausência incomoda muito mais. 

 

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Às mulheres mães

por amorlíquido, em 30.06.20

Ela é da cor da Primavera

no terraço da vida sentada à espera

que a dor do vazio desvaneça

e que no mundo talvez aconteça 

o grito da eterna união. 

 

Entre lágrimas de um laço perdido

desfeito, porém sentido

nasce o sorriso da descoberta. 

Aprende-se a sentir o invisível 

a querer o não possível, e

numa janela entreaberta

voam certezas pouco certas

ficando o cheiro de um p'ra sempre amor.

 

Na verde esperança de uma nova história

crescem dúvidas nas raízes

abraçadas ao medo do insistir.

Do sal que corre no rosto

beija-a a curva do acreditar

que do ritmo que nela sofreu

a natureza há de recriar

a existência de um futuro alguém. 

Sim, cor de Primavera

tal como ela

que de vida se soube mãe.

 

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Ao sabor da maré, num oceano confinado

por amorlíquido, em 25.06.20

Há uns tempos escrevi que: "Louco é aquele que num mundo onde reina o descompromisso, insiste abraçar o amor". Nunca esta frase me fez tanto sentido. Mas também nunca me assustou tanto o não encaixe. Entre os que ficam por gostar e os que preferem ir ficando, sem nunca realmente estar. Em sítio nenhum. No coração de ninguém. Laços que surgem como amarras, aos olhos de quem pouco quer investir. Não será isto um contrassenso? Pela força do nó que os separa? 

Talvez o medo não esteja no ímpeto do elo, mas no receio de que ele jamais se desfaça. E no que o mundo vê desgraça, esses loucos descobrem o valor de amar. 

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