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O último post de 2020

por amorlíquido, em 22.12.20

- A verdade está para o tempo como o sofrimento para a superação. Não há mentiras que sejam eternas nem glórias que não façam doer o coração -

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(A todos os que me vão lendo, aos que eu leio, e à família cuja partilha e inspiração são constantes, um Feliz Natal 🎄 e um ano de 2021 sem o desalento do presente. Que o medo vá e o futuro traga a esperança para seguir em frente!) 

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(Título em Branco)

por amorlíquido, em 06.12.20

A vida. Essa dimensão que balanceia entre a magia que vai além do palpável e aquilo que somente existe através de nós.

O antagonismo que sobressai quando a pertença tida como inquestionável e duradoura, troca os pronomes possessivos pelo desvanecer num tempo imperfeito. A tenuidade do que sempre foi julgado como presente, desfeito pela imprevisibilidade que teimamos ignorar.

E então, tudo parece demasiado. Demasiado cedo. Demasiado injusto. Demasiado. Vive-se com insuficiência e atribui-se a efemeridade ao que nos surge como ilógico, inconcebível, inacreditável.

Damos em demasia ao que nos trapaceia, desconcerta ou ultrapassa. Demasiada importância, demasiado valor. Demasiado. A perplexidade consome-nos quando mais precisamos e, em nada, ela nos retribui. A vida. Perante ela não somos nada e é isso tudo o que temos. O hoje. Uma pele que se funde com a nossa essência e é na permanência que nos distrai. Da importância e da urgência dos atos que adiamos. Dos sonhos que não seguimos. Dos que amamos sem demonstrar. Do que queremos dizer mas insistimos em esperar. Porque o amanhã virá. Sempre. Um futuro que não é posto em causa, tal como o sol nunca se esquecerá de aparecer.  

Até ao dia em que a certeza desmorona e a lua vive duas vezes. E tudo quanto o respetivo lugar nos era familiar, cai no abismo da escuridão, do medo, da descrença, do ser alheio a qualquer vontade. O caminho entorta, o horizonte desfigura-se e o propósito morre com a luz que se esqueceu de voltar.

O significado adoece na eternidade e a unidade que fazia adornar o rosto com o sorriso mais sincero, encolhe-se num abraço de desistência. Demasiado compreensível. Demasiado legítima. Tudo em demasia.

Morre-se antes de se morrer e essa é a pior morte. A de estar lúcido e não conseguir senão sobreviver.

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A um mês de 2021

por amorlíquido, em 02.12.20

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Contraluz

por amorlíquido, em 17.11.20

O sol mal acabara de nascer num ímpeto de protagonismo ainda pouco amadurecido. Talvez escondido pela vastidão do ultrapassável, cuja acumulação tornara míope o vislumbre da realidade. Entre ele e o mundo outro permanecia uma transparência embaciada, fruto da precipitação do dia anterior.

Sobre a mesa redonda, entre pensamentos pouco escritos, sentia-se o aroma torrado de um café acabado de fazer. O arrependimento engolido em seco, de pálpebras trémulas que tingiam os papéis em branco, tornara urgente a expulsão do que acorrentava o peito. Ao passado pouco vivido. Ao presente por viver. E, sem querer, ao rasgar a pele desiludida, a luz do verão apareceu. 

As flores falecidas por dentro derramaram o sangue deprimido de um corpo sem norte. Aliviado por respirar nas pausas do tempo, crescido das suturas que o protegeram da morte. Sob a madeira velha que rangia, a ansiedade mostrava-se num ritmo descompassado. Pela incerteza de um destino só. Pelo medo de escolher o fim ao qual não se pertence. Ele, fundido ao que não volta, aguardava que o futuro lhe trouxesse a sorte. 

Numa chuva interrompida por soluços do vento, o lápis tremia em rabiscos feitos à pressa, com palavras soltas guardiãs do que mais revolta. Porque era seu e foi perdido. Porque se entregou e foi esquecido. Mas no esquecimento sempre habitou o antónimo de amar. Entre a ausência e a possessão talvez exista o tempo de fugir dessa prisão. Que em contraluz a favor do luar, as lágrimas correm para o desaparecimento. Do que parou os minutos da mente, do que travou corações para sempre. E quando o dia próximo for seu, sobreposto ao hoje que estará por viver, quem sabe se o calor do café não será bebido sem não mais doer. 

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Até quando?

por amorlíquido, em 29.10.20

Vinte décadas cumpridas de um novo milénio, numa viagem que perdeu pelo caminho tanto do que nos torna humanos. A cooperação que outrora nos foi útil à sobrevivência, deu lugar à busca incansável por um elo mais fraco. Uma luta quase constante na qual a felicidade alheia, a muitos desconforta. Porquê?
Se a História nos ilumina acerca dos erros do passado, a educação deveria, hoje mesmo, alertar para a importância do futuro e de tudo o que ele acarreta. O tempo passa, as sociedades amplificam-se e a cultura influencia aquilo que os valores deveriam fazer evoluir. Mas onde nos perdemos nesta progressão?
Os "likes" estão agora à distância de um clique, embora os princípios ainda subjazam numa crença não ultrapassada do machismo e de um patriarcado muito questionável. Da gente que se teima arrumar em gavetas incolores porque a distinção mata. Os que encaixam e, todos os outros, que só em mentes pouco resolvidas em lado nenhum fazem parte.
Em que altura se esqueceu a tolerância e a compaixão? O mundo continua a parar para discutir não-assuntos. Não porque sejam irrelevantes, senão porque a desvalorização não deveria existir à partida. A etnia, a origem, as questões de género, a violência sexual. Onde foi que se aprendeu a denegrir e agredir tudo e todos os que se desviam do padrão por ninguém instituído? Quem ensinou que a heterossexualidade é a face certa da moeda e, portanto, as demais orientações podem e devem ser ostracizadas? Onde se leu a falácia de que o romance serve, única e exclusivamente, o interesse da procriação?
Afinal, que epidemia deteriorou a coragem para destoar do normativo, em prol do respeito e da aceitação? Assusta-me que a pretensão de julgar o outro amadureça muito antes da capacidade que temos para gostar de nós.
Uma temática que cruza quaisquer fronteiras geográficas, porém aqui, neste retângulo que se autoproclama como democrático, a liberdade continua a ser interrompida quando algo diverge da uniformidade. Defendemos querer avançar, todavia continuamos acoplados a ideologias, não pelo conteúdo que as move, senão como uma jura partidária de um clube ao qual se deve pertencer até ao instante último anterior a qualquer morte. Até quando?
A quantos mais movimentos #metoo ou #blacklivesmatter iremos assistir? Quantas mais vezes a raça será um dos tópicos cuja necessidade de abordagem é tamanha que não escapa ao confronto político num debate presidencial de uma das maiores potências mundiais? Até quando irão as comunidades LGBTQI+ ser menosprezadas nos direitos pelos quais se vêem obrigadas a manifestar? Por mais quanto tempo irão as mulheres ser vítimas de assédio, importunação ou qualquer tipo de injúria de índole sexual? E até quando serão julgadas pela indumentária que envergavam quando situações destas acontecem? Quantas mais vezes se irá questionar um "não"? Não importa o minuto em que foi proferido, nem ninguém precisa de saber o que sucedeu previamente. Foi dito em algum instante? Sim? Então é não. Parou ali. Ponto final. Argumentos que dêem a entender o atiçar de pulsões incontroláveis não justificam atos que violem o direito de consentimento, seja em que circunstância for.
Vamos recuar um pouco. Desde que me conheço que sempre ouvi a lengalenga de que se um homem seduz e se mostra disponível, então é um garanhão, mas uma mulher nos mesmos preparos é, NO MÍNIMO, uma oferecida. Que tem ele a mais que ela? Nada. Nem ela a mais que ele. São iguais nos deveres e nos direitos também. A emancipação das mulheres não deve ser nunca vista como sinónimo de libertinagem, senão como aquele murro firme na mesa ou como aquela atriz que interpreta à luz dos holofotes. Foram demasiados os anos na penumbra, no assento da ingrata humilhação sob alçada de um argumento demasiado pobre: "porque és mulher".

Porque és mulher. Porque és preto. Porque és gay
Durante muito tempo o medo calou vozes, adiou sonhos e silenciou certezas de um amanhã melhor. Tarde nos apercebemos da multidão que chorava em uníssono, calados numa sombra da qual ninguém queria saber. Mas se até a noite faz o dia nascer, certo será que não há escuridão que se eternize.
Porquê este texto? Um desabafo. Pela revolta que me alimenta a raiva, tão simultaneamente como a impotência sentida perante profunda incompreensão. Pelo desejo, talvez utópico, de que os valores, os princípios, o caráter, acompanhem as revoluções tecnológicas, as sociedades liberais e as educações inclusivas, em vez de ficarem presos nas faíscas que, infelizmente, ainda saltam da fogueira dos Neandertais.

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Pensamentos diários #7

por amorlíquido, em 21.10.20

E se a vida não trouxer? E se o tempo não levar?

Mas e se a tristeza doer? Ou o amor não nos encontrar? 

Afinal, quando vamos aprender a sentir em vez de morrermos a tentar?

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