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A um mês de 2021

por amorlíquido, em 02.12.20

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Contraluz

por amorlíquido, em 17.11.20

O sol mal acabara de nascer num ímpeto de protagonismo ainda pouco amadurecido. Talvez escondido pela vastidão do ultrapassável, cuja acumulação tornara míope o vislumbre da realidade. Entre ele e o mundo outro permanecia uma transparência embaciada, fruto da precipitação do dia anterior.

Sobre a mesa redonda, entre pensamentos pouco escritos, sentia-se o aroma torrado de um café acabado de fazer. O arrependimento engolido em seco, de pálpebras trémulas que tingiam os papéis em branco, tornara urgente a expulsão do que acorrentava o peito. Ao passado pouco vivido. Ao presente por viver. E, sem querer, ao rasgar a pele desiludida, a luz do verão apareceu. 

As flores falecidas por dentro derramaram o sangue deprimido de um corpo sem norte. Aliviado por respirar nas pausas do tempo, crescido das suturas que o protegeram da morte. Sob a madeira velha que rangia, a ansiedade mostrava-se num ritmo descompassado. Pela incerteza de um destino só. Pelo medo de escolher o fim ao qual não se pertence. Ele, fundido ao que não volta, aguardava que o futuro lhe trouxesse a sorte. 

Numa chuva interrompida por soluços do vento, o lápis tremia em rabiscos feitos à pressa, com palavras soltas guardiãs do que mais revolta. Porque era seu e foi perdido. Porque se entregou e foi esquecido. Mas no esquecimento sempre habitou o antónimo de amar. Entre a ausência e a possessão talvez exista o tempo de fugir dessa prisão. Que em contraluz a favor do luar, as lágrimas correm para o desaparecimento. Do que parou os minutos da mente, do que travou corações para sempre. E quando o dia próximo for seu, sobreposto ao hoje que estará por viver, quem sabe se o calor do café não será bebido sem não mais doer. 

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Até quando?

por amorlíquido, em 29.10.20

Vinte décadas cumpridas de um novo milénio, numa viagem que perdeu pelo caminho tanto do que nos torna humanos. A cooperação que outrora nos foi útil à sobrevivência, deu lugar à busca incansável por um elo mais fraco. Uma luta quase constante na qual a felicidade alheia, a muitos desconforta. Porquê?
Se a História nos ilumina acerca dos erros do passado, a educação deveria, hoje mesmo, alertar para a importância do futuro e de tudo o que ele acarreta. O tempo passa, as sociedades amplificam-se e a cultura influencia aquilo que os valores deveriam fazer evoluir. Mas onde nos perdemos nesta progressão?
Os "likes" estão agora à distância de um clique, embora os princípios ainda subjazam numa crença não ultrapassada do machismo e de um patriarcado muito questionável. Da gente que se teima arrumar em gavetas incolores porque a distinção mata. Os que encaixam e, todos os outros, que só em mentes pouco resolvidas em lado nenhum fazem parte.
Em que altura se esqueceu a tolerância e a compaixão? O mundo continua a parar para discutir não-assuntos. Não porque sejam irrelevantes, senão porque a desvalorização não deveria existir à partida. A etnia, a origem, as questões de género, a violência sexual. Onde foi que se aprendeu a denegrir e agredir tudo e todos os que se desviam do padrão por ninguém instituído? Quem ensinou que a heterossexualidade é a face certa da moeda e, portanto, as demais orientações podem e devem ser ostracizadas? Onde se leu a falácia de que o romance serve, única e exclusivamente, o interesse da procriação?
Afinal, que epidemia deteriorou a coragem para destoar do normativo, em prol do respeito e da aceitação? Assusta-me que a pretensão de julgar o outro amadureça muito antes da capacidade que temos para gostar de nós.
Uma temática que cruza quaisquer fronteiras geográficas, porém aqui, neste retângulo que se autoproclama como democrático, a liberdade continua a ser interrompida quando algo diverge da uniformidade. Defendemos querer avançar, todavia continuamos acoplados a ideologias, não pelo conteúdo que as move, senão como uma jura partidária de um clube ao qual se deve pertencer até ao instante último anterior a qualquer morte. Até quando?
A quantos mais movimentos #metoo ou #blacklivesmatter iremos assistir? Quantas mais vezes a raça será um dos tópicos cuja necessidade de abordagem é tamanha que não escapa ao confronto político num debate presidencial de uma das maiores potências mundiais? Até quando irão as comunidades LGBTQI+ ser menosprezadas nos direitos pelos quais se vêem obrigadas a manifestar? Por mais quanto tempo irão as mulheres ser vítimas de assédio, importunação ou qualquer tipo de injúria de índole sexual? E até quando serão julgadas pela indumentária que envergavam quando situações destas acontecem? Quantas mais vezes se irá questionar um "não"? Não importa o minuto em que foi proferido, nem ninguém precisa de saber o que sucedeu previamente. Foi dito em algum instante? Sim? Então é não. Parou ali. Ponto final. Argumentos que dêem a entender o atiçar de pulsões incontroláveis não justificam atos que violem o direito de consentimento, seja em que circunstância for.
Vamos recuar um pouco. Desde que me conheço que sempre ouvi a lengalenga de que se um homem seduz e se mostra disponível, então é um garanhão, mas uma mulher nos mesmos preparos é, NO MÍNIMO, uma oferecida. Que tem ele a mais que ela? Nada. Nem ela a mais que ele. São iguais nos deveres e nos direitos também. A emancipação das mulheres não deve ser nunca vista como sinónimo de libertinagem, senão como aquele murro firme na mesa ou como aquela atriz que interpreta à luz dos holofotes. Foram demasiados os anos na penumbra, no assento da ingrata humilhação sob alçada de um argumento demasiado pobre: "porque és mulher".

Porque és mulher. Porque és preto. Porque és gay
Durante muito tempo o medo calou vozes, adiou sonhos e silenciou certezas de um amanhã melhor. Tarde nos apercebemos da multidão que chorava em uníssono, calados numa sombra da qual ninguém queria saber. Mas se até a noite faz o dia nascer, certo será que não há escuridão que se eternize.
Porquê este texto? Um desabafo. Pela revolta que me alimenta a raiva, tão simultaneamente como a impotência sentida perante profunda incompreensão. Pelo desejo, talvez utópico, de que os valores, os princípios, o caráter, acompanhem as revoluções tecnológicas, as sociedades liberais e as educações inclusivas, em vez de ficarem presos nas faíscas que, infelizmente, ainda saltam da fogueira dos Neandertais.

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Pensamentos diários #7

por amorlíquido, em 21.10.20

E se a vida não trouxer? E se o tempo não levar?

Mas e se a tristeza doer? Ou o amor não nos encontrar? 

Afinal, quando vamos aprender a sentir em vez de morrermos a tentar?

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"Não é a distância que mede o afastamento"

por amorlíquido, em 20.10.20

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Há uns dias, quando me cruzei com esta fotografia tirada num lar em Espanha, o polegar, com a pressa de seguir viagem, recuou na curiosidade do que o olhar havia captado. E nesse breve instante, antes que o medo fizesse transbordar as feridas retalhadas, houve espaço para a reflexão. 

Um mundo que se antevê dividir-se em dois momentos não mais indistinguíveis, onde habita o tempo do abraço sem as divisas urgentes à proteção? Em que lugar desta história se deixará perder o cheiro da pele ou a fusão de demais vontades? O poder assustador que emerge da falsa proximidade, entre amores que, apesar do beijo, continuam distantes. Porque falta tudo o que se mantém humano. 

Vestiram-se as fronteiras da sensibilidade, transpareceram-se opostos que refletem a incerteza de sentir esperança e, no abismo entre o que resta do que é só nosso e o que pertence ao outro apenas, mascara-se o ímpeto da união. Fecham-se as portas da partilha, as janelas dos não-segredos. Sente-se por dentro o que deixou de existir por fora, na imaginação do que ainda ontem era presente. 

Que o futuro nos solte as amarras do que soubemos estar longínquo e que a dificuldade que atravessamos nos faça ver para além das barreiras, agora, necessárias. Que a incógnita do amanhã nos ensine, hoje mesmo, a importância da presença inadiável, a emergência de palavras cantadas em sussurro. Frente a frente, sem écrans, sem personalidades enevoadas, sem intenções mal direcionadas. 

Talvez o amor se isole de vez. Da ausência, da não transparência. E os que careçam da sua pujança, serão os primeiros a falecer. 

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Ouvi dizer que algures existe

por amorlíquido, em 14.10.20

O horizonte. Numa sobreposição de instâncias que diverge do ponto onde pensamos ter de chegar. A imensidão entre lugares desconhecidos, à primeira vista opostos, imersos num ciclo onde a renovação é certeza de mudança. 
A geometria do que nos rodeia pouco importa no ciclo que se impõe repetir, porque o erro não está em julgar distante o que da percepção se afasta, senão em acreditar impossível o que vive mesmo debaixo dos nossos pés. São linhas múltiplas numa imaginação coletiva que trapaceia todas as vontades.

Onde tu estás, ninguém desconfia. Assobiam-se rótulos com o mesmo descaramento com que se guardam os egos num novelo emaranhado. Descobertos com o ímpeto de marcar presença no pódio, esquecendo a magia que só existe quando crescemos depois de não ganhar. 
Onde eu estou, somente esta matéria sabe os segredos. A que me contém e que transborda para além de mim. A que te procura e a que foge de ti. 

Sapatos todos usamos. A sola do nosso corpo aquece nas vitórias e ferve com a amargura das derrotas. Mas o teto que eles pisam, nesse caminho cuja marca esmorece aquando da passagem, esse é único. É o nosso chão, o nosso destino. A nossa cruz. Sempre soube isso, mas só há pouco tempo percebi na metamorfose que o mesmo assume na natureza. Não se prolifera, não se reproduz. Apenas morre e muito antes de nos sentirmos partir. 

Afinal o horizonte é uma curiosa efemeridade que habita fora do que somos, alimentando-se do que tentamos assumir. E por muito longínquo que o vejamos, sempre verei o outro mais perto desse alcance, sem saber que aos olhos de alguém deambulo também sobre essa retilineidade. 
No fim, estamos igualmente próximos ou igualmente apartados. Quando soubermos o lugar de onde emerge, abriremos o peito e guardaremos o vazio que é sem nos pertencer. A ambos. 

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